ARQUIVENTO

BONS VENTOS A TODOS!!!

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012





O agora entorna
sobre o arame
que contorna
ponteiros invisíveis...

O tempo mastigado
por hora vagueia
na lambida deliciosa
do vento na areia

gotejam memórias
em azul desbotado
florescem horizontes
num brilho emprestado

o silêncio invade o céu
da boca encarnada
há um alarme gritando
entre o tudo ou nada






   

Ilustrador original: John Tenniel



   Em pleno aniversário de 150 anos de Alice no País das Maravilhas & Através do Espelho, leio o livro  No Bosque do Espelho de Alberto Manguel, que começa com o autor confessando  o seu encantamento, desde a infância, pelo mundo de Alice e oferece um passeio, fazendo travessias pela ficção e realidade, a partir de vários autores.
   Assim como o livro de Lewis Carrol, o texto de Manguel nos coloca num estado de constante surpresa. Caminhei pelo bosque de espelhos de mãos dadas com Alice e com o leitor-autor, revisitando: Borges, Cortázar, Vargas Llosa, assim como passeei na reflexão crítica sobre a arte e a produção literária.
   Agradeço o acesso a este livro,assim como, em Através do Espelho, ensinou a Rainha Vermelha a Alice:

Você deve agradecer de maneira bem sentida.

   Sigo ciente que a leitura mantém  a coerência no caos, não a evitá-lo ou extingui-lo, mas promovendo o progresso através da própria vertigem, da escuridão e direito a escolha, como o poético diálogo entre Alice e  o gato:


Podia me dizer, por favor, qual é o caminho pra sair  daqui?
Isso depende muito do lugar, pra onde você que ir, disse o gato.

  Lembrei com carinho do texto de Paulo Mendes Campos:



Para Maria da Graça


           Quando ela chegou à idade avançada de 15 anos e eu lhe dei de presente o livro Alice no País das Maravilhas.
            Este livro é doido, Maria. Isto é: o sentido dele está em ti.
         Escuta: se não descobrires um sentido na loucura acabarás louca. Aprende, pois, logo de saída para a grande vida, a ler este livro como um simples manual do sentido evidente de todas as coisas, inclusive as loucas. Aprende isso a teu modo, pois te dou apenas umas poucas chaves entre milhares que abrem as portas da realidade. A realidade, Maria, é louca.
           Nem o Papa, ninguém no mundo, pode responder sem pestanejar à pergunta que Alice faz à gatinha: "Fala a verdade, Dinah, já comeste um morcego?"
       Não te espantes quando o mundo amanhecer irreconhecível. Para melhor ou pior, isso acontece muitas vezes por ano. "Quem sou eu no mundo?" Essa indagação perplexa é o lugar comum de cada história de gente. Quantas vezes mais decifrares essa charada, tão entranhada em ti mesma como os teus ossos, mais forte ficarás. Não importa qual seja a resposta; o importante é dar ou inventar uma resposta. Ainda que seja mentira.
          A sozinhez (esquece essa palavra que inventei agora sem querer) é inevitável. Foi o que Alice falou no fundo do poço: "Estou tão cansada de estar aqui sozinha!" O importante é que ela conseguiu sair de lá, abrindo a porta. A porta do poço! Só as criaturas humanas, nem mesmo os grandes macacos e os cães amestrados conseguem abrir uma porta bem fechada e vice-versa, isto é, fechar uma porta bem aberta.
Somos todos tão bobos, Maria. Praticamos uma ação trivial, e temos a presunção petulante de esperar dela grandes conseqüências. Quando Alice comeu o bolo, e não cresceu de tamanho, ficou no maior dos espantos. Apesar de ser isso o que acontece geralmente às pessoas que comem bolo.
Maria, há uma sabedoria social ou de bolso; nem toda sabedoria tem de ser séria ou profunda.
A gente vive errando em relação ao próximo e o jeito é pedir desculpas sete vezes por dia: "Oh, I beg your pardon!” Pois viver é falar de corda em casa de enforcado. Por isso te digo para a tua sabedoria de bolso: se gostas de gato; experimenta o ponto de vista do rato. Foi o que o rato perguntou à Alice: "Gostarias de gatos se fosses eu?”.
Os homens vivem apostando corrida, Maria. Nos escritórios, nos negócios, na política, nacional e internacional, nos clubes, nos bares, nas artes, na literatura, até amigos, até irmãos, até marido e mulher, até namorados, todos vivem apostando corrida. São competições tão confusas, tão cheias de truques, tão desnecessárias, tão fingindo que não é, tão ridículas muitas vezes, por caminhos tão escondidos, que, quando os corredores chegam exaustos a um ponto, costumam perguntar: "A corrida terminou! mas quem ganhou?" É bobice, Maria da Graça, disputar uma corrida se a gente não conseguirá saber quem venceu. Para o bolso: se tiveres de ir a algum lugar, não te preocupe a vaidade fatigante de ser a primeira a chegar. Se chegares sempre aonde queres, ganhaste.
Disse o ratinho: "Minha história é longa e triste!" Ouvirás isso milhares de vezes. Como ouvirás a terrível variante: "Minha vida daria um romance". Ora, como todas as vidas vividas até o fim são longas e tristes, e como todas as vidas dariam romances, pois um romance é só o jeito de contar uma vida, foge, polida mas energicamente, dos homens e das mulheres que suspiram e dizem: "Minha vida daria um romance!" Sobretudo aos homens. Uns chatos irremediáveis, Maria.
Os milagres sempre acontecem na vida de cada um e na vida de todos. Mas, ao contrário do que se pensa, os melhores e mais fundos milagres não acontecem de repente, mas devagar, muito devagar. Quero dizer o seguinte: a palavra depressão cairá de moda mais cedo ou mais tarde. Como talvez seja mais tarde, prepara-te para a visita do monstro, e não te desesperes ao triste pensamento de Alice: "Devo estar diminuindo de novo". Em algum lugar há cogumelos que nos fazem crescer novamente.
E escuta esta parábola perfeita: Alice tinha diminuído tanto de tamanho que tomou um camundongo por um hipopótamo. Isso acontece muito, Mariazinha. Mas não sejamos ingênuos, pois o contrário também acontece. E é um outro escritor inglês que nos fala mais ou menos assim: o camundongo que expulsamos ontem passou a ser hoje um terrível rinoceronte. É isso mesmo. A alma da gente é uma máquina complicada que produz durante a vida toda uma quantidade imensa de camundongos que parecem hipopótamos e de rinocerontes que parecem camundongos. O jeito é rir no caso da primeira confusão e ficar bem disposto para enfrentar o rinoceronte que entrou em nossos domínios disfarçado de camundongo. Mas como tomar o pequeno por grande e o grande por pequeno é sempre meio cômico, nunca devemos perder o bom-humor. Toda pessoa deve ter três caixas para guardar humor: uma caixa grande para o humor mais ou menos barato que a gente gasta na rua com os outros; uma caixa média para o humor que a gente precisa ter quando está sozinho para perdoares a ti mesma, para rires de ti mesma; por fim, uma caixinha preciosa, muito escondida, para as grandes ocasiões. Chamo de grandes ocasiões os momentos perigosos em que estamos cheios de sofrimento ou de vaidade, em que sofremos a tentação de achar que fracassamos ou triunfamos, em que nos sentimos umas drogas ou muito bacanas. Cuidado, Maria, com as grandes ocasiões.
Por fim, mais uma palavra de bolso: às vezes uma pessoa se abandona de tal forma ao sofrimento, com uma tal complacência, que tem medo de não poder sair de lá. A dor também tem o seu feitiço, e este se vira contra o enfeitiçado. Por isso Alice, depois de ter chorado um lago,  pensava: "Agora serei castigada, afogando-me em minhas próprias lágrimas".
Conclusão: a própria dor tem a sua medida. É feio, é imodesto, é vão, é perigoso ultrapassar a fronteira de nossa dor, Maria da Graça.



Texto extraído do livro “O Colunista do Morro”, Editora do Autor – Rio de Janeiro, 1965, pág. 23







quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Todo poema tem suas sombras
de prateleiras empoeiradas
de livros comidos pelas traças
poetas feitos de eternidade.

Nem todo verso quer luz
a penumbra amplia os sentidos
a iluminação revela a cegueira
e dá valor a escuridão

Estrofes querem ouvidos
sem marcas de gritos
não querem falar, mas dizer
elas murmuram silêncios

A poesia é cega, muda e surda.
Só existe quando não há.
Não cabe na prisão das palavras
é livre demais para ser ...

Eu sou grande, contenho multidões.
Walt Whitman
Não sabes nada de mim
se pudesses compreender
que sou boa até ruim
poderias me conhecer

Não sabes nada de ti
nem compreende teu ser
como queres saber de mim
se não sabes nem de você

Ignoras o que sinto
finges como poeta
em versos de absinto

Vistes a janela aberta
invadistes o recinto.
Cuidado com a descoberta!









segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Enquanto em febre
leio palavras incendiárias
em 'Todos os fogos o fogo'
de Cortázar ...

palavras em lavas

e o texto queima em minhas mãos
suando um carinho molhado
a amenizar a agonia
congelando o tempo
soprando num afago
o fogo da poesia
domingo, 16 de dezembro de 2012


   


  Ela seguia sobre os paralelos soltos dos dias - mosaico caótico do tempo. Seus passos leves sapatilhavam a lama das palavras de carinho desenhados sob a chuva de insensatez. Havia luz debaixo do tecido de chumbo que cobria o céu.
   O azul no fundo da caixa  do infinito, num vinil lançado nas areias da paisagem desejoso de andar, até o fundo da praia morena, mergulhada nos olhos secos da platéia carpideira, que assistia a sua dor de chorar.
  Envelopes de promessas fugazes, como um sorvete consumido pelo vento, conferiram cartas e pertences, bilhetes e lembranças, para serem tragados no porão dos sentidos, engolidos em um querer-menino, escorrido pelos azulejos das submersas travessuras aprisionadas entre paredes.
   Encontros ocos e ecos de tudo, recheados de obtusas declarações, entre olhares-mudos e bocas lambidas pelo vazio de um espelho negligente e aparência viés de uma desconstrução cruel de um amor que nunca existiu,  nos intervalos de rejunte dos paralelos do chão do agora, apoteose de refazer o olhar, para não mais vê-lo pela janela encantadora de palavras apagadas, pela sombra que brinca com  sensibilidade arranhando-as, enquanto se disfarçam de bondade.
  Ela sentiu a mordida sorridente do seu coração amassado num papel - projetado por alegrias momentâneas e tristezas duradouras, no fundo da lixeira do camarim.
   Ausência de luz no palco de si - devassado pela ironia do fogo, aceso por lavas desgastadas em versos de um posfácio de gritos e gozos, nas fendas de parágrafos calados, jamais proferidos pela boca do texto, decifrados pelo Cruzeiro do Sul:  tecido de estrelas cegas pelo próprio monólogo umbilical.
   Grutas  inventadas, escorrendo em tinteiros, tomados por convulsões denegadas a esmo, numa busca insana de uma maturidade às avessas - negação do colo sufocado em poemas belicosos.
    Ave os escultores de luz, que permitem a projeção de sombras-poemas em constelações invisíveis!
quarta-feira, 5 de dezembro de 2012


Para meu querido Raul

Sou um pouco cora
um pouco lina

principalmente sou
teu sorriso oriental
a escada do morro de minha infância

subo os olhos ao céu
na tarde que avermelha
meus sentidos

Sou a encardida
em teus azulejos de abrigo

Em teus pincéis quebrados
a vontade de pintar o invisível

Nas estantes de palavras
os instantes de silêncio

Sou você e somos nós
coralinos sós


terça-feira, 4 de dezembro de 2012
Não quero mais errar
sem acertos
nem acertar sem erros
e desconcertos
???nunca
!!!sempre

Cadê o tempo?
Olha o tempo!

remanejadas estações
cheias de convicções
sobras de etiquetas temporais
coisas  e intempéries

Cadê o tempo?
Olha o tempo!

A espera de uma nova série
enfrentar o relógio do mar                    
mergulhando sem medo
nessa onda de não errar...

Enquanto isso:
é remar...e remar...





Para Ricardo Lacerda




folhas anoitecidas dentro do verde mosaico
o olhar da flor delicada entre cactos
o desenho das pedras no caminho difícil

- o céu sem janela -

a porta da amizade sempre aberta
o vaga-lume carregando a noite
o cansaço estirado no chão
o sorriso largo da paisagem

pés em águas de candeias
- revisitando nossas almas -
contaminadas pela liberdade


quarta-feira, 28 de novembro de 2012

 Pra  você  

Quero escrever um texto torto
sem início, nem fim
que comece num ponto
e termine de repente
.assiM

Que seja um poema
do avesso de mim
um beijo ao contrário
um não pelo sim.

Cabeça aos pés
pisada mental
um corpo ao revés
doçura no sal.

...um olhar de ternura
em poema fatal.

segunda-feira, 26 de novembro de 2012


...comprimidos que ainda doem engolir.










Te encontrei num rabisco velho de mim
encolhido numa folha de um caderno
enrugada página do tempo

estiquei as palavras com as mãos
mas elas já não eram
ficaram no passado agarradas
as lembranças de nossos segredos

um ontem cheio de tanto hoje
passeia dentro de minha rua
cartão postal de uma fúria amorosa
que me fez ventar pra sempre.


quinta-feira, 22 de novembro de 2012
  




    Meu jeito de amar sempre será sozinho, porque amo sem limites e com toda profundidade que um mergulho possa permitir. Não há medição, nem mediação para o amor que trago e nem sei... se   sei dividi-lo. Ele é assim: inteiro, sem freio, sem precaução, nele não há fronteiras ou divisores. É um bloco concretamente suave. Só precisa do toque da verdade, para se manifestar. O amor que me carrega, compartilho na liberdade de amar, como eu quiser, é assim. 
   Minha vida tem  sentido, mas meu coração - ferramenta de amar - planta, colhe, semeia, areando sob o sol e tem tantas direções, que não encontra o caminho de amar'um, embora seja único. 
    Plural é esse meu amor de sozinhez. Ah, meu amor, como é só e tantos!

terça-feira, 20 de novembro de 2012



monstro que abriga o sol
segue protegendo o amor
sob as solas dos pés...

sombras agônicas de não-ser
têm o lar nas cavernas que o habitam:
entranhas estranhas...

projeção no escuro do speculum
maqueia-se em fotos embaçadas
de tantos Eus, em infinitudes rasas...

tanto para esconder uma flor
- lótus emoldurada em tanto -
criatura da vitimada vontade de viver...




...o desenho da liberdade
não cabe dentro do meu dentro
livre saio pelo mundo
protegida pela deusa da vontade
sem limite
de ultrapassar passar assar asa ar

na força do vento embalo
o dom de voar
toco nuvens e digo impropérios lúcidos
pra enlouquecer de tanto azul

Dobram sinos em minhas catedrais
profanas e livres
e florescem dissonâncias
de um silêncio sem sentido
orientado pela tarde molhada de primavera.

Eis: olhos cegos que tateiam a boca
do beijo da noite que roça o ponto
final da imperdoável reticência...

Feronices hajam
e ajam em mim.
segunda-feira, 12 de novembro de 2012




...o vento arrastou sinos silenciosos
sobre tuas catedrais poéticas.

O céu colorido da tarde
alaranjado de maduro
engole o azul que foi
e sempre será...

Sobre o amor?
O vento soprou
e os sinos
não tocaram...
Nenhum alerta
para o vento quente
ou frio, soprado
em teu ouvido.

Fez-se um Furacão,
derrubou tudo...
e você nem saiu do lugar.

...sempre
preferiu a brisa,
o vermelho
sapatos para Alice
na sala de espelhos.

No meu jardim
- assaltado pela desconstrução -
o vento ainda espalha
o aroma daqueles dias
de semear poesias.

...no meu quintal
as flores são sinos azuis
regadas pelo amor
das nuvens que passam
sobre seu nimbo
desenhando o tempo
de calar os versos

Não sou escritora,
não planto rosas,
nem mereço poemas,
não colho vaidades...
Sou jardineira de sinos.

...a literatura é meu engano
predileto...
Sou a musa sufocada.
Respiro o perfume
dos sinos azuis...
encarcerada entre versos,
nesse jardim de oferendas
às suas Nereidas e Náiades.

Meu amor se espalha...
sobre cabeças,
embaixo das portas,
empurrando folhas,
tocando nuvens
e as sombras dos sinos:
ecos emudecidos.















quinta-feira, 8 de novembro de 2012






Estreito ângulo
a boca ruge
escorre veneno dos olhos

o silêncio se espreme
no que não foi dito
no que não foi escrito
no gesto que não houve
no desejo reprimido
na calada da noite

amanhecida e mastigada insônia
o horizonte em beco no teu olhar
a perdição feita de virtuosidade
fajutos passos
para o nada de sempre
as palavras ainda prisioneiras

quarta-feira, 7 de novembro de 2012


I

Mordo o sol
somo o sumo
sorrio luas
embaçadas em poças
de uma chuva madura
encharco de vida

II

Sopro  antíteses
brisas grossas
furacões suaves
desenho do silêncio
num deserto baldio
danço em senzalas
desacorrentadas de tudo

III

Despeço-me da chegada
em partidas fragmentadas
numa modesta inteirice
desconstruída no primeiro ato
num ir eterno

IV

Perfumo versos livres
com hálito primaveril de Baudelaire
mastigo girassóis de Van Gogh
abraço paisagens inventadas
num encontro mítico
entre lavras de palavras
 acenos invisíveis entre cegos





segunda-feira, 5 de novembro de 2012
Nasceu um sorriso
em minha alma colorida
pela tua presença
tão nova e velha e renovada

trocamos brilhos entre olhares
floridos de tantas vivências

ali naquele canto
extasiados  com a música
dos mímicos
mãos tímidas
perdidas a se procurarem

nunca saímos
sempre estivemos
juntos

e do lado
de fora da casinha
nós jamais desatados
domingo, 4 de novembro de 2012




Nunca saberá
o que fiz depois
daquela partida

...segui inteira
sambando incoerências
enquanto descia a ladeira

e das estrelas
brilhando tão grudadas
no céu da boca

e no beco da vontade
de nunca mais
te ver pra sempre

ouvi blue Jazz xaxado
samba-rock
fui tão pop
depois que fui
nunca mais
pra sempre

Clássico desejo tropeçou
na barra de sêda
e caiu sobre a chita
recheada de periferia

rasguei a cortina
na cena infinita
do acabou

tua contínua busca
encontrou-me Julieta
atirada sobre
as marcas do veneno
doce dos teus olhos



sábado, 3 de novembro de 2012
O poeta é um jogador
joga tão completamente
que aposta até no amor
debocha da dor e não sente

Descarta o que não interessa
na manga guarda seu bem
só joga as cartas na mesa
se pode ganhar também

Palavras, cartas, amores
viciado em descartar
aproveita naipes e cores
para bater sem blefar

Copas, paus, ouro, espada
todas em sua mão
é jogador da pesada
que tem leve o coração
sexta-feira, 2 de novembro de 2012
Seu talento de mentir
fez crer, meu coração
vadio, que não existe.

Posso sequer sentir
este bater tão leve,
em mim pesado e triste. 

Desculpe a sinceridade,
- pelo amor negado -
falseando a  verdade. 

Só que a própria vida,
nesse vento que apanha,
confere a sua batida:

apostada em rondas,
nos versos derramados,
pela espuma das ondas.


quinta-feira, 1 de novembro de 2012









na casa da  tua ausência
perambula o amor vadio
a friagem:cômodo vazio

rasgam-se  as  cortinas 
lambe a poeira espessa 
nó de criança travessa

desmanche de amor
bateu a porta e o verso na cara
aos porcos jogo de pérola rara
apagou-se  luz e cor

numa ilha de pescar promessa
no sal daquela  baía
o mar solveu a magia
demorou pra acabar depressa









terça-feira, 30 de outubro de 2012


Entre um barulhar quieto
e o calado  chiar
há   um grito de silêncio

A palavra cresce
sacode o sentido
explode e muda segue

Ruído de amor
recolhe os dizeres
rumoreja a perda

viúvo de motivos
o sentimento condenado
é som da ausência

O vento canta
em dobras silentes
amordaçados desejos










segunda-feira, 29 de outubro de 2012
  
Os livros me alimentaram  
 e até hoje matam minha fome.



  Queridos companheiros,sempre, despeço-me de vocês, quando chego a última página, escrevendo a estação do ano e o mês que termino a leitura, mas desta vez resolvi misturar estações e entre um solstício e um eclipse declarar a minha fraqueza, meu desalinho, meu sorriso frouxo e a minha repleta dose de endorfina ao construir um primeiro ângulo entre nossos olhares e o brilho de nossas retinas, diante do reluzir da capa de cada um de vocês, mesmo quando opacos e envelhecidos, numa prateleira de Sebo.
 Não conseguirei falar de todos, mas citarei alguns casos amorosos, que carrego, até hoje, como rito de iniciação, mudança de ciclo ou amantes que visito, inesperadamente, ou trago pra minha cama no meio da noite, ou numa tarde chuvosa, onde o meu olhar reencontra algum de vocês, em plena carência, e pedimos-nos.
   Sou tão literariamente promíscua que minha mesa de cabeceira é habitada por no mínimo três livros que leio simultaneamente, toda noite,antes de ter meu sonho predileto: minha fantasia intelectual de uma biblioteca, onde basta eu desejar um assunto e nasce um livro com mesmo tema na prateleira.
 Ultimamente, tenho me dedicado a três livros que não identificarei, para não desencadear ciúmes, pois a pouco ocorreu uma rebelião nas prateleiras, porque chegaram novos amigos e tive, por isso, que fazer algo que dói em mim: escolher.
   A escolha é um exercício de liberdade que nos custa superar nossa própria escravidão. Porém, nunca fui egoísta com vocês, sempre procurei ter uma relação aberta, desprendida de haveres e condições, dividindo-os com quem quisesse praticar com vocês o prazer da leitura.
    Tudo que resolvi dizer, nesta carta, não traduz a importância que vocês têm pra mim, pois assistiram fechados muitos episódios de minha vida e abriram minha alma, pra infinitas possibilidades. Penso, se minha estante falasse.Entre vocês escondi, desde cedo, tímidos poemas, prosas desconexas, confusão de palavras guardadas, como folhas secas e pétalas e flores, depositadas como lembranças subscritas. Alguns entre vocês chegaram a tal cumplicidade, que foram rabiscados com reflexões existenciais, provocadas em mim pela erupção de idéias, sentimentos,comprometimento com os narradores, personagens, ou eu líricos dos poemas que ainda me emocionam, quando eu releio cada texto.
    Nenhum texto é impenetrável, como nenhum leitor é insensível, assim sempre coabitamos segredos conficionais e de nossos sub textos nasceram análises, releituras, intertextualidades, que são outros nomes para o desdobramento do amor literário, carregado  pelo prazer que ecoa, gerando os processos infinitos do efeito dominó que há entre o pensamento e a palavra.
    Meus melhores amigos, talvez não saibam (embora eu creia que tenham sido criados para isso),o quanto interferiram em mim, ou me fizeram mudar.Revolucionaram idéias e conceitos, me ensinaram a enfrentar preconceitos e a revirar a minha vida e descobrir minha própria literariedade. A identificação com autores, personagens tão afins comigo, tão especulares, opostos e adversos quebraram as fronteiras entre a minha leitura e a leitura de mim.
Provocadores e inversores da teoria da recepção promoveram uma simbiose e capturara-me pra dentro de vocês. Misturaram o ser-leitor com o ser-literário.
     Eis, aqui, meus inspiradores, minhas últimas considerações sobre a importância de terem me dado asas e colaborado que me lançasse, me transforma-se e me sentisse capaz de tornar-me transformadora: Coração Selvagem de Clarice Lispector, Memórias póstumas de Brás Cubas de Machado de Assis,Dom Quixote de Cervantes, Hamlet de Shakespeare, Sertão Veredas de Guimarães Rosa, A rosa do povo de Drummond, Operário em Construção de Vinícius,Eu de Augusto do Anjos...Dostoiévski,Neruda, Cortázar, Puig, Garcia Marques...fora outros contemporâneos que aprendi amar, como: A Louca da Casa de Rosa Montero e a Sombra do Vento de L.Záfon...Confesso que sou infiel a todos vocês.
      Adotivas criações, que tomo como meus, vocês fizeram tatuagens corrosivas em minha memória, onde se organizam títulos e nomes registrados, eternamente em mim.  Respirei os aromas que ofereceram, senti os sabores, na pele percebi o calor e o frio, vi noites e dias, ouvi vozes entre linhas e me equilibrei e cai sobre  as palavras que escalei, reconhecendo em suas capas a espada que trazem no bojo.
         
      
sábado, 27 de outubro de 2012



"O limo: poeira dágua.
Cinza: poeira do fogo."
 G. Bachelard









...peneirada a montanha
desfaz-se a paisagem:
poeira azul.


...a chuva fina
 peneira nuvens
 sobre cabeças
 desanuviadas


a luz desses olhos
que não há...
peneira a noite
enfrentando o dia


o maldito peneira
o bendito silêncio:
a poeira poética
do eco dos sentidos


desejo: poeira de carne
morte: poeira do corpo
palavra: pó do poeta






         
         
           










  Ele era insuportável. Era o que Ela dizia, sempre que encontrava sua melhor amiga. Não havia nenhuma razão para continuarem dormindo na mesma cama, mas nada mudava naquele inferno de cada dia, onde eles se espetavam e cozinhavam em banho-maria aquela relação.
   Uma manhã, Ela apareceu num discurso diferente:
 _Agora será suportável a presença dele.
   O que causou enorme surpresa em sua amiga, que abruptamente perguntou:
_ Como assim?
   Ela respondeu com firmeza:
_ Ele tornou-se um retrato na parede.
    Algum tempo depois, a amiga foi visitá-la e sem resistir curiosa:
_Onde está a imagem do insuportável?
_Nem o prego suportou, disse rindo a amiga, ele acabou estilhaçado e aproveitei para a reciclagem.                 Agora tenho um exemplar de um homem de verdade, que todos os dias me olha nos olhos.




terça-feira, 23 de outubro de 2012

Corri pela chuva
não quero mais
teu sol, nem sal

Quero da mão a luva
da escrita a tinta
e da água o gosto
não te quero mal

só que não minta
sobre o sabor da uva
e não esconda o rosto
por não ser igual

parte o verso e pinta
refaz essa curva
vira o nó da poesia
tome um madrigal

Corri pela chuva
bebi o temporal
estiquei-me ao vento
livre no varal


segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Tecido de asfalto
entremear de liberdade
e assombro
em fios de através
rede de movimentos
insanos
busca de horizonte
ao revés
sem ter pra onde
trançado pelo vento
o caminho
se esparrama
na curva trincada
fio à fio
veste a paisagem

sábado, 20 de outubro de 2012

Os postes trançam as nuas ruas
terço beneditino
os prédios latem alarmes
louvores noturnos
e tudo é madrugada
trevas brilhantes

o dia vai longe
o céu distante
o tempo cobre-nos
semeadura de palavras
e nem ouve nosso silêncio
na epifania premeditada

gritos no deserto do arrependimento
sem perdão
pelos teus santos pecados obtusos

nunca a noite foi tão azul
cobrindo o manto de lavas
abrem-se estradas
covam-se vidas
crucificação do amor

o vento arde
em todas as coisas
de tanta vontade

pede a Deus
pra pecar novamente:
o pecado está
em perdoar-se
sexta-feira, 19 de outubro de 2012
Presente  do meu aluno ...



   E o vento soprou...sobre a caixa de livros, empoeirados com o passar do tempo. A procura de outro objeto, não pretendia achar a caixa, já esquecida, mas me senti envolvido a voltar a minha infância, com aquela caixa em mãos, como um pedaço do tempo.
   Quando abri a caixa, nela encontrei meu primeiro livro pequeno, com figuras essenciais para um livro infantil. Folheei as páginas, e delas saíam memórias que despertavam algo adormecido em minha mente. Era como se as figuras reavivassem um pedaço da minha infância e me fizessem  esquecer as preocupações do dia a dia. Era como voltar a ser criança.
   Num mergulho mais fundo, pude encontrar, já velho, meu primeiro romance, com várias páginas marcadas pelos respingos de lágrimas, por todas as vezes que foi lida uma cena forte de inexprimível amor...ou por momentos felizes, em que envolvido pelo livro senti a emoção dos personagens ao alegrarem-se, demonstrando seus sentimentos.
   Voltei para o cotidiano, saindo do túnel do tempo, guardei os livros e fechei a caixa. O pedaço de tempo se desfez em minhas mãos. 
   E o vento soprou sobre a memória...

...Herick Marques,  
aluno da E. M .Prof. Paulo Freire.
segunda-feira, 15 de outubro de 2012



        Quando minha filha, aos 10 anos, fez-me esta pergunta, pensei que fosse ter dificuldade para respondê-la, mas eis que de súbito eu a respondi: 
       _ Pelo mesmo motivo, que sou mãe, minha filha, por amor. E ela insistiu:
       _Amor igual ao que tem por mim? 
    _Não, amor por educar, dividir experiências, conhecimentos, aprender e errar, tentando acertar. Juntar o que eu aprendi, com o que eu sinto, acredito, detesto, evito.  Sensibilizar... é isso. Quem vai ser professor, quer ser um tocador de almas, por isso entendo essa profissão (ou missão) como um sacerdócio, ou simplesmente como uma afinação de instrumentos, pois:  “...viver é afinar um instrumento de dentro para fora de fora pra dentro”.
               O professor é um ser humano comum, cheio de dúvidas, problemas, medos, insatisfações, mas, simultaneamente, temos o que outras profissões talvez não tenham, por subestimar o contato com o outro: a visão da construção e da evolução do aluno que atravessa pelo corredor menino, menina (imaturos independente da idade) e de repente, nos cumprimenta como um homem ou uma mulher (prontos para a luta). Trabalhamos com o tempo, usufruímos dele e podemos observá-lo com o mesmo carinho, que um pai ou uma mãe observa o seu rebento crescer, florir, dar frutos. Temos a sensação de que nossos alunos nascem de nós, não saindo de um útero, mas das cavernas da insegurança, dos becos dos descrédito, das grutas da indiferença, ou, simplesmente, da leitura de um livro, de um texto, ou daquela pergunta (Ah! Aquela que esperamos três anos, que ele fizesse). E daí nosso rosto, antes mesmo de respondermos, dispara o alarme do: _“Que bom! Ele conseguiu!”
                 Quantas provas incompletas, eu já trouxe em branco, para casa, porém com um desabafo na última folha: 
                “_É, desculpe-me, mas hoje não deu; _Eu estou com a cabeça cheia; _Tô apaixonado; _Meus pais estão se separando; _ Briguei com meu melhor amigo ou fui traído; _Pô, aí, não deu Prof, Minha mãe tá doente.” E a vontade de dar um 10 dez, pela honestidade é tão grande, quanto o ciúme, ou inveja mesmo, de não ter  a coragem de declarar isso, numa pauta a direção, ou no meio de uma aula, em tom de desabafo:
                   _“Hoje, eu tô de saco cheio!” Isso é sensibilidade. Isso é nos vermos e nos mostrarmos, como seres humanos. É preciso esquecer, definitivamente, que temos que ser produtivos, pois ninguém produz mais sentimentos do que nós e, quantas vezes, não nos respeitamos, nem nos damos o direito de dizer o que vai dentro da gente. Esquecemos ou fazemos com que esqueçam, até, que somos gente.
                  Por que ser professor? Há, muitas vezes, uma certa ironia nesta pergunta, pela desvalorização, pelo desrespeito e descaso, que nossa profissão vem sofrendo, ao longo do tempo. Mas devo afirmar, que nenhuma outra profissão me satisfaria, mesmo sabendo que nunca vou receber pelo que faço. E quiçá, nem mesmo, saber porque mereço, outras vezes, receber tão pouco, ou menos do que outros colegas, ou que outras profissões. Na verdade, eu já nasci professor, isso está além do meu mapa astral ou da minha carteira de trabalho, porque eu nasci, para amar e nesta profissão encontrei o meio de praticar esse amor.  Assim, mesmo quando não tenho grana para ir a um Congresso da minha área; não posso fazer aquele curso que tanto queria; vou a um Sebo; compro um livro; troco uma edição velha, por uma nova; vou ao museu; vejo uma exposição; quando sobra tempo, vou ao teatro; porque para o amor durar é preciso ser cuidado, regado, renovado. E o amor pela profissão, assim como a vida, parodiando Cecília Meireles, só é possível reinventado...
                 Por isso, eu acredito, que ainda que como professora não tenha, muitas vezes, dinheiro para satisfazer o teu desejo, filha, com o que quer vestir, ter, calçar ou fazer aquela viagem de férias, eu ganho o que muito profissional, mais bem pago, não ganha, tento investir ou revestir de vida, conhecimento e sensibilidade todo ser humano, que senta a minha frente, com o intuito de vivenciar a aprendizagem e com ele aprendo. Talvez pareça pouco para os que preferem a aparência, mas é que nós, professores de verdade, somos maestros e orquestradores da essência.
                Nossa papel é interferir, interagir, não criar os filhos dos outros, mas ensiná-los a serem criativos, diante das circunstâncias da vida. Tê-los como filhos, significa educá-los, prepará-los, preveni-los, não protegê-los da dor, do sofrimento, ou impedi-los de serem infelizes, simplesmente respeitá-los, para termos deles o respeito, que queremos que tenham por todos os que eles encontrarem pelo resto de suas vidas.                                                                         
                          
                 
        Cláudia de Souza Lemos     
                                                                                                                                                                       
Filha de D. Dora, doméstica que sonhava que  eu fosse
 médica  e de Seu Mário , jardineiro que queria
 que eu fosse Engenheira Agrônoma.


 PARA A PROFESSORA  LÉA 



   A carranca e os gestos curtos explodiam em palavras de ordem. Em plena ditadura Ela afirmava que devíamos lutar pela liberdade. Na minha ingenuidade pensava e sentia o sentido de li-ber-da-de como algo grande e importante, pra que a defendesse assim. 
  Todos os dias me perdia tentando entender o porquê dela nunca brincar, nem alegrar-se com nada. O máximo que fazia era esticar o cantinho da boca e levantar as sombrancelhas, quando fazíamos algum comentário sobre nossa vida de meninos. 
   Sempre nos aconselhava: _ Não sejam soldadinhos de chumbo, busquem o giro da bailarina. Ela é uma flor diferente nesse jardim. 
   No dia dos professores de 1976,  todos levaram rosas. Eu não tinha dinheiro pra comprar flores, mas sentia que rosas eram comuns pra Ela. Desenhei Flores Azuis, no avesso de um papel de presente do dia das crianças, e entreguei, discretamente, dobradinho em suas mãos, depois dos meus colegas de classe. Todos a abraçaram e beijaram, mais com receio do que por simpatia. Foi quando Ela, austera, pediu silêncio e disse: _ Meu abraço de Professora, que educa pra liberdade, vai para os olhos mais indagadores que já vi. Nesse momento, Ela atravessou a sala, veio em minha direção, me abraçou, olhou nos meus olhos tortos e disse: _ Minha Bailarina! E a cena daquele sorriso largo, nunca saiu da minha memória.


sábado, 13 de outubro de 2012



...exibe teu coração no mosaico
da parede que  não construiu
que guarda teu grito de gozo
e entre tijolos teu choro solitário

corre sob teus pés o mesmo rio
que passa por aqui
nunca verás e provarás nem

entre teus braços um vão
espaço metafórico
que torpedeou sem ser
derrame do herói

na tua sombra o tempo
se desfaz na baba
de uma fria lava
numa parede invisível
e sobre o sepulcro erra
enquanto cava
se enterra na poeira do vento
errante sopro
recortes de memoria
do indizível






Entre o espaço
sozinho
um cheiro de azul
celeste-marinho

só de nada
multidão de tudo
desordem calada
contemplação do absurdo

Thanatos
de fatos
Eros
de quero-quero

Psiquê
de que?

Olimpo
é um garimpo
inconsciente:
mito latente...

Vários de nós
acompanhados sós.





segunda-feira, 8 de outubro de 2012


Te odeio com tanto amor
que perdi-me
nessa fronteira de contrários
No silêncio uivante do vento
gritos fagulham meu errante desespero

Nunca fomos, porque fomos sempre...

Te amo com tamanho ódio
que encontrei-me
nesse emaranhado reflexo
Nós dois num mesmo estilhaço de espelho
refratários, repartidos...

Jamais seremos...
até que seja.

sábado, 6 de outubro de 2012
Sou a flor da pele
na minha pele de flor

festa perfumada
depilada de dor

aroma de pele florada
sentido de toda cor

Festa perfumada
depilada de cor

Aroma de pele florada
sentido de toda dor

Sou a pele da flor
na minha flor da pele









O sol tocou o seu rosto.
Ele não descongelou.
o sorriso guardou,
no olhar só,
um tira-gosto.

Outono político.
Promessas espalhadas.
Esperanças vazias,
sobre as calçadas.

O trocado
que é pouco
pela troca sem preço.
Um desabrigado panfletário
confeitado em seu endereço.

Segue a saga
do fazer invisível.
Deixa a carga
do despoder
sempre elegível.








quarta-feira, 3 de outubro de 2012

A menina se apaixonou por um homem
que o menino jamais será.
O homem se apaixonou por uma mulher
que a menina nunca haverá de ser.
O menino não deseja a mulher,
 nem o homem a menina.


A mulher deseja o homem,
o menino a menina.


Inquieto o vento não passa,
contém-se e sopra pra dentro.
Vai inchando e explode, transpira,
tece erupções cutâneas no tecido da vida.
Investe contra si, pra inflar, virar balão
e quer soltar-se em algum vale longínquo,
em busca de um atalho que o faça mutante.

Vento que faz caminhar o Deserto.
Emudece, só faz soprar...
Só quer ser vento de ventar
e entortar as linhas imaginárias,
que dividem nosso mundo.

                                   * É um vento que sopra dos trópicos em direção ao Equador.







   Conhecemos os meninos de Dalton Trevisan, após lembranças de um futuro no presente, tomados pelos eufemismos dos sabores da infância, ao falarmos do acre-doce desejo, concentrado na ponta do punhal da paixão. Parecem incompatíveis, paradoxos de salvação e de perdição. Eis que afirmamos, sem nenhum compromisso com a coerência, para tal inocentes, um uníssono: 'não'.
   Revivemos, assim metáforas de um conto nada pueril: O menino e Estacha; a água e a terra; a cigarra e a formiga; as folhas de couve e as pelotas modeladas, para o estilingue, eis o arsenal para o enfrentamento. Mas nada, nenhuma figura de linguagem é mais significativa que o caco de vidro.
    Entre o menino e Estacha (menina desejosa e desejante que é anunciada trajando um vestido azul desbotado e quase transparente de tão gasto, contando cinco dias na casa - esse inconsciente familiar), existe uma vontade que sangra. Além disso, ela manipula a água, na posição de lavadeira, enquanto, simultaneamente, ele vai bulindo a terra. Todos os elementos telúricos desenham ações de sujar e limpar; perseguir e encontrar; ver e tocar. Ela olhava-o sem escândalo, quem sabe um pouco deslumbrada. Ele se aproximava numa querência, rolando  na palma da mão um bocado de barro preto. Ela empilhava a lenha ao lado do fogão.
   Saboreando morangos, o perseguidor e a perseguida caminham dentro do bosque escuro. Ela promete uma ameaça: _ Conto pra sua mãe. Olhe que eu conto.
   O adiamento do contar, constrói um texto-denunciador, que delata, ao mesmo tempo que a cigarra dilata de encantada, para a tropa de formigas-lavadeiras...
   Ela defendeu-se com um caco de vidro. O pedaço de vidro caído entre os dois. Ele recolheu as pelotas no saquinho de pano, ela deu-lhe as costas e sacudiu o pó do vestido.
   Ele a olhou, ela não. As formigas seguiram e ciciou a cigarra.
   O caco de vidro ficou inteiro dentro dos dois.


sexta-feira, 28 de setembro de 2012
...até   o inesperado acaba se transformando em hábito,
quando se aprendeu com a indiferença...
J . Cortázar

Ela tinha reservado surpresas pra ele, quis ser guardiã do seu sorriso, mas de repente o silêncio escuro, numa escuridão derramada no olho do ouvido.
Sem pensar, não há o que pensar...não se sabe pensar, somos ensombrecidos por algum rasto das lutas, fora do ringue. 
Nas malhas da rede, seu corpo, que ela desejou em uma tarde de circo, mas as necessidades de Seu Mago eram como sempre a sua vontade.
Jaz um olhar inútil sobre o cadáver, que nasceu pra ser feto.
Morto por um talho na garganta, nasceu o silêncio.
Carpidarias telefônicas, fumando o silêncio: essa fumaça que sufoca.
_Sou eu, que danço no silêncio e nas faíscas de sons inesperados, queimo a tristeza.
_Sou eu, é a sua voz, à beira do limite.
Calar por dignidade, devolver lentamente o receptor a seu gancho, ficar imaculadamente sozinha. 
O limite foi transposto, começou o ridículo, o pequeno inferno confortável. Na curva do frio ela encontra calor.Sente como se viesse de longe. Continua o calor e a voz dele no fundo da linha, até que a  voz se canse e não reste mais nada. Uma coisa morta que terá de repelir sem olhá-la. Pela segunda vez consegue escapulir da rede. Sente na sua pele, ou a sua pele abandonada. Peixe na rede e o veneno. 
As mensagens que realmente importam estão, em dado momento, aquém de qualquer palavra. Compreendo o fogo, o calor, como a frieza e o frio e  a detestável dissimulação...só demora o longo vão entre as palavras.
Passo por ti como as formigas:_ Sou eu, minucioso ditado sob o silêncio.
Ele sempre gostou de escolher as palavras, evitar diálogos supérfluos. Ela repete, repete, repete acentuando-as de maneira diferente. Enquanto ele prepara o mínimo de respostas sensatas que ponham ordem nesse lamentável arrebatamento.
O fogo arde, chamas...chamas...ninguém atende. Uma chuva de fagulhas e abraça Cortázar, numa solidariedade literária que queima. O óleo fervendo, o incêndio dos depósitos subterrâneos. A fumaça apaga as imagens do braço ardente  envolvido pelo fogo. 
Tudo faz ser difícil erguer um aceno. Há um vento forte.

(fragmentos de 'Todos os fogos: o fogo' de Júlio Cortázar, alimentado pelo Vento, talvez uma reescritura)