ARQUIVENTO

BONS VENTOS A TODOS!!!



   Conhecemos os meninos de Dalton Trevisan, após lembranças de um futuro no presente, tomados pelos eufemismos dos sabores da infância, ao falarmos do acre-doce desejo, concentrado na ponta do punhal da paixão. Parecem incompatíveis, paradoxos de salvação e de perdição. Eis que afirmamos, sem nenhum compromisso com a coerência, para tal inocentes, um uníssono: 'não'.
   Revivemos, assim metáforas de um conto nada pueril: O menino e Estacha; a água e a terra; a cigarra e a formiga; as folhas de couve e as pelotas modeladas, para o estilingue, eis o arsenal para o enfrentamento. Mas nada, nenhuma figura de linguagem é mais significativa que o caco de vidro.
    Entre o menino e Estacha (menina desejosa e desejante que é anunciada trajando um vestido azul desbotado e quase transparente de tão gasto, contando cinco dias na casa - esse inconsciente familiar), existe uma vontade que sangra. Além disso, ela manipula a água, na posição de lavadeira, enquanto, simultaneamente, ele vai bulindo a terra. Todos os elementos telúricos desenham ações de sujar e limpar; perseguir e encontrar; ver e tocar. Ela olhava-o sem escândalo, quem sabe um pouco deslumbrada. Ele se aproximava numa querência, rolando  na palma da mão um bocado de barro preto. Ela empilhava a lenha ao lado do fogão.
   Saboreando morangos, o perseguidor e a perseguida caminham dentro do bosque escuro. Ela promete uma ameaça: _ Conto pra sua mãe. Olhe que eu conto.
   O adiamento do contar, constrói um texto-denunciador, que delata, ao mesmo tempo que a cigarra dilata de encantada, para a tropa de formigas-lavadeiras...
   Ela defendeu-se com um caco de vidro. O pedaço de vidro caído entre os dois. Ele recolheu as pelotas no saquinho de pano, ela deu-lhe as costas e sacudiu o pó do vestido.
   Ele a olhou, ela não. As formigas seguiram e ciciou a cigarra.
   O caco de vidro ficou inteiro dentro dos dois.


sexta-feira, 28 de setembro de 2012
...até   o inesperado acaba se transformando em hábito,
quando se aprendeu com a indiferença...
J . Cortázar

Ela tinha reservado surpresas pra ele, quis ser guardiã do seu sorriso, mas de repente o silêncio escuro, numa escuridão derramada no olho do ouvido.
Sem pensar, não há o que pensar...não se sabe pensar, somos ensombrecidos por algum rasto das lutas, fora do ringue. 
Nas malhas da rede, seu corpo, que ela desejou em uma tarde de circo, mas as necessidades de Seu Mago eram como sempre a sua vontade.
Jaz um olhar inútil sobre o cadáver, que nasceu pra ser feto.
Morto por um talho na garganta, nasceu o silêncio.
Carpidarias telefônicas, fumando o silêncio: essa fumaça que sufoca.
_Sou eu, que danço no silêncio e nas faíscas de sons inesperados, queimo a tristeza.
_Sou eu, é a sua voz, à beira do limite.
Calar por dignidade, devolver lentamente o receptor a seu gancho, ficar imaculadamente sozinha. 
O limite foi transposto, começou o ridículo, o pequeno inferno confortável. Na curva do frio ela encontra calor.Sente como se viesse de longe. Continua o calor e a voz dele no fundo da linha, até que a  voz se canse e não reste mais nada. Uma coisa morta que terá de repelir sem olhá-la. Pela segunda vez consegue escapulir da rede. Sente na sua pele, ou a sua pele abandonada. Peixe na rede e o veneno. 
As mensagens que realmente importam estão, em dado momento, aquém de qualquer palavra. Compreendo o fogo, o calor, como a frieza e o frio e  a detestável dissimulação...só demora o longo vão entre as palavras.
Passo por ti como as formigas:_ Sou eu, minucioso ditado sob o silêncio.
Ele sempre gostou de escolher as palavras, evitar diálogos supérfluos. Ela repete, repete, repete acentuando-as de maneira diferente. Enquanto ele prepara o mínimo de respostas sensatas que ponham ordem nesse lamentável arrebatamento.
O fogo arde, chamas...chamas...ninguém atende. Uma chuva de fagulhas e abraça Cortázar, numa solidariedade literária que queima. O óleo fervendo, o incêndio dos depósitos subterrâneos. A fumaça apaga as imagens do braço ardente  envolvido pelo fogo. 
Tudo faz ser difícil erguer um aceno. Há um vento forte.

(fragmentos de 'Todos os fogos: o fogo' de Júlio Cortázar, alimentado pelo Vento, talvez uma reescritura)




quarta-feira, 26 de setembro de 2012


No tempo infinito do nunca.

    Não te escrevo, nesse momento, porque doem em mim as palavras. Elas gritam em meu seio, em meu ventre e se recusam serem paridas. Há muito, essa prisão de não serem sobre os papéis as impedem de serem escritas. Os dizeres que trago nessa não-carta, borbulham dentro de mim e são esquisitas. Profanam, mas não proferem, preferem a jaula dos sentidos submersos, costuram-se em meus tecidos internos e se dissolvem em meu sangue, circulam e querem vazar pelos meus dedos amputados de caneta, lápis, tinteiro, teclado, antes de entrarem em combate. Elas são desvalidas e valorosas pra mim, mas recusam a folha, como campo de batalha e negam o chão, onde repousam ao nascerem livres, para terem direções e significados. Não querem eclodir impressas: tatuagens verbais.
    Não sei quando, mas elas sairão convulsivas ou suavemente, e arregaçarão  meu Ser; Suspenderão minha sensatez e haverão contrárias a esta epístola negada, que não escrevo, num silêncio que as engole nesse tear de passividade perfilando representações, vulcanizadas no interior dessa primavera embaraçada. Impedida de florescer.
    Esta missiva não há. Não pode ser. Ela é avessa a existir e não manifesta-se em liberdade alguma, contida pelo desejo do claustro. Expressa-se num envelope que desenha a fronteira do escrito e da escritura. Desfaz-se em garrafas, que nunca serão lançadas ao mar. Dissolvem-se em mares e marés, sem jamais chegarem a lugar nenhum.
    Nesse carteado, coleção de jogos e impressões, que não disputa nada, nem celebra um ganhador, nem mesmo entristece o perdedor, as palavras esperam, na minha caixa de correio íntima, acontecerem endereços e caminhos. Assim, empapelando-me, sou o envelope sem registro, endereçado ao vento, sem carta nenhuma, sem palavras, sem remetente, nem destinatário.
    O papel azul da carta desbotada, quase invisível, não consegue reunir as cores primárias, que traduzem aquarelas diluídas por sentimentos, que desfeitos em matizes abstratas, assinam, às avessas, esta carta nunca escrita, pois um incerto pombo-correio de missivas acolhidas pelo tempo remeteu o pensamento nessa denegação.

A sombra de uma folha  na ventania.
terça-feira, 25 de setembro de 2012
Nunca a calçada a meu lado,
nem a travessia em paralelos.

Todas as parábolas guarda-chuvas
e os eixos atravessados no meio fio.

Palavras vazias de desinências
...puras, puras de pureza.

Gestos indigestos,
promoção da desvontade.

Nada...tudo feito de nada.



sábado, 22 de setembro de 2012


Seu outono partiu. O sol voltou a se misturar com a chuva e as flores voltaram a brotar em mim. Meu vento, agora, espalha perfumes. Meu vento reencontrou sua missão: perfumar as sombras, que o outono negou, rendendo folhas secas abandonadas. Há pétalas de flor  nos olhares e colorido nas faces. Os sorrisos chamam sorrisos e a alma calma tem por nome: Leveza, essa insustentável Kundera.





sexta-feira, 21 de setembro de 2012


No quintal
sempre a florir
até lá em cima chegava
mas não dava
pra subir...

Doava sabores
sorvetes inventores
de sorrir

Ao limoeiro aprendiz
ensinava a sombra
 e a receita de ser feliz

doce azedo e fragrância...
recordo da minha infância
o abacateiro que vivi




segunda-feira, 17 de setembro de 2012










Porta entreaberta
passagem apertada
metade da janela
pedaço de olhar

Frio em meia coberta
cama desarrumada
incenso de canela
a noite cansada
Sigo a sinalização

Estrelando o céu
sou astrolábio
a chuva... dentro tudo molhado
ao meu lado o seco segue
parte a lua ao meio

Eu na esquina da rua
pronta pra entrar
encontro a porta fechada,
a janela emperrada
o azul desbotado.

No vão,
cabe
um estreito até.










domingo, 16 de setembro de 2012

Existo e não penso se existo.
Penso e não existo se penso.
Visto o improviso lenço.
Viso o senso do imprevisto.

Se agendo, não resisto.
Contra-tempo descompenso.
Hoje aquilo, ontem isto.
Só vivo por extenso.

Minha fronteira conquisto.
Remendo o azul imenso
No arco do tempo insisto.
Queimo como um incenso.



quinta-feira, 13 de setembro de 2012



.não quero mais ficar nem ir
.quero não querer
,não vou mais
...nem viver nem morrer
;proibirei o estar
.só haverá o ser
?Crer no amor
!não

.delibero a confissão
;deflagrada a insatisfação
confiro-me o direito
de não cumprir deveres
filhos da futilidade

declaro para devidos fins
+que são vãs
=todas as palavras
*sem manifestação
&guardas arrefeçam
@os pulmões e gritem
?o que há

/não quero mais amor
#que não se queira amar
)nem amar o amor
>que não se quer

Fora todo dentro
!não manifesto
vã guarda libertária
...de todos os restos



segunda-feira, 10 de setembro de 2012

luz na caixa de fósforo
contida em muitas cabeças
apagada a luz a sombra se guarda
vira promessa, avessa ao brilho
que não há no fogo que não houve
basta a fronteira do querer
acender o lume
e a sombra já quer ser

o palito na caixa
controla a sombra
que só acende 
se apaga o desejo
de mantê-la fechada
sem prover a chama
que é mãe parideira
da sombra do fogo
que incendeia o barco
no meio do rio

no bolso do homem
a terceira margem
ilumina a página molhada
sombra encharcada de luz
liberta da caixa de tudo
que queima a sombra
que desaparece no rio
que engole a vida do homem 
que habita a caixa preta 



domingo, 9 de setembro de 2012
     




    Ouço Cornet Chop suey com Armstrong e em viagem no tempo lembro de O Grão da Voz de Roland Barthes. Numa semiologia da felicidade tomo em mãos o livro, presente do meu irmão caçula, quando meu corpo retorna por uma via indireta, musical. E torna-me impossível não citar uma daquelas falas barthesianas em que ele diz não haver nenhuma verdade, mas apenas uma opinião: 
    É no fundo, esta viagem do corpo (do sujeito) através da linguagem, que as nossas três práticas (fala,escrito,escritura) modulam, cada uma a seu modo: viagem difícil, retorcida, variada, a quem o desenvolvimento da radiodifusão quer dizer de uma palavra ao mesmo tempo original e transcritível, efêmera e memorável(...).
    Sou despachada na esquina dos anos 50,40,30,20...e não quero voltar. Quero essa falta de sentido da escritura, que dá sentido a este meu escrever. As palavras criam sentidos que as possuem. E o som no fundo, soa o arranhar do tempo, numa serenidade inquieta e traduz um momento de simplicidade. Há nessa brecha uma vagueza infiel que permite a pele o arrepio  denso, diante de um vento que bate a porta e sacode a janela, me alcançando estirada sob o relógio parado, enfeitando a parede do meu lúcido devaneio.
     Armstrong e Barthes, meus companheiros deste fim de domingo, depois de uma viagem poética,  são  haveres infinitos...entre a ponte e o rio que dança sob meus pés.
sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Para Cláudia Lemos

O céu, uma tela suspensa


de fundo siano e púrpura mesclados,


me traz a tua imagem na retina.


Uma lua cheia em Saturno

gravitando poesias,


bagunçando sua órbita,


rodopiando os anéis,


em ciranda de menina, levada.


Claudicantes somos todos nós,


Poetas, ciganos e andarilhos do vento...
Massami Saito
terça-feira, 4 de setembro de 2012

Há uma dor em teus olhos que cala o meu sorriso e faz urrarem cólicas em meus sentidos.
A suave sombra de tua distância, me deteriora o senso e mastiga em lambidas minha esperança.
Sempre em nossos encontros adormecem as palavras, ficamos inconscientes.
Soa dúbio teu silêncio que ecoa dilúvios de pensamentos, perturbando temporais em meu espírito.
Deixas minha alegria de mau humor, meu sangue parado nas veias e uma sensação de morte em tudo.
Vive quando me mata.
Mata quando me dá a falsa sensação de viver.
Saio de ti, pingando tristeza, rasgando gritos na pele e sabendo que a vontade...nunca mais vai...acabar.
Colho espinho em tuas jarras de flores, que pareces querer atirar em mim, simplesmente, porque semeio em teu jardim o amor, cada vez que a luz apaga, que a fala é interrompida e a vontade...não cessa de brotar, na paisagem, o direito de tecer canteiros, sob o solo infértil que me ofereces.
Dói em mim tudo que falta, meu bem-querer cego de pétalas.



domingo, 2 de setembro de 2012
Prá minha     
irmã.


As corredeiras do tempo
vazantes enluaradas.
Postes no meio da rua
paralelos nas calçadas.

O mundo  inverso cabia
no fogo da madrugada
convocando a alegria.

Vento de realidade
tecido de brilhante.
Trazia no peito a verdade
do haver de um instante.

O deboche à tristeza.
Vãs maquiagens de outrora.
Soavam na rude leveza
dos gritos do vou embora.

Entre escadas e pontes
desenhando a rebeldia
buscou novos horizontes
para a vida que ainda fia.



sábado, 1 de setembro de 2012
    


   Calidoscópico, assim era o olhar daquele eu lirico multifacetado, sem-sentido e direção, pois atirava versos-dardos em todas as formas e horizontes, capturando um pouco de si em cada mulher encontrada, esboços poéticos, que fazia.
    Mapeou seu objetivo anatômico-geográfico, a fim de construir a musa, ainda que só lhe restasse uma desconstrução picassiana a ser lapidada, ou quem sabe o ideal de seu desenho-fantasia, onde ele gozava só   em descobrir-se na mira. Assim cruzando olhares, perspectivas e contornando seu desejo predileto, ele seguia.
     Começou pelo extremo Nordeste do feminino e em suas reentrâncias, recolhendo na coragem da mulher-mandacaru a força física da parideira do impossível: o ventre.
    Fez poemas e teceu tramas para a femina geradora: metáforas, Ave-marias, confissões  matriarcas, defensora de suas crias e criações, sorrindo com a navalha entre os dentes.Sua Maria Bonita.
      Retirou dela o feitiço e seguiu à busca de outras faces para a musa indelével.
    Há outro lado na bússola da voz poetizadora, contrária ao berço nascente a exclusão da mulher das Docas, nos portos do Norte da fêmea, flutuando pelos rios, desdobradora de corpos em corpos, desfazendo-se em sexo, entre cobras e lagartos, à deriva de si mesma, vagando de cama em cama, sem ter onde ancorar. Seu Boto Rosa de botar.
    Tomou-a nos braços, tentando entender, porque a chamam mulher-dama, se é tratada apenas como fêmea, visível apenas no vértice de seu corpo, despejo de desejos, a moeda do cara ou coroa das vontades sem-preço, que são pagas tão barato. 
      Tirou dela o extremo-medial, que todo eu lírico sonha, pra uma mulher bela "na moldura de uma cama".
      Partiu em busca de outras colaborações valorosas da pintura desse máximo de mulher. Desceu ao meio de tudo, ao centro feminal, Planalto do poder, em meio ao meio, alcançou a altivez o ar superior da musa, que ergue a cabeça sobre o salto, pra dizer a que veio em silêncio: _Sai da frente liberdade, pra passar uma Amazonas-de-grife. 
      Dessa mulher que escolhe, onde caminhar, roubou os pés e o olhar, seus extremos rascunharam as duas pontas da musa-composição.
     Veio até o sudeste do gênero em busca, numa aposta radical: levo a bunda ou a cabeça dessa mulher geni(t)al. Curvilíneo é seu poema, mas de postura libertária. Eis, minha Leila Diniz.
     Rebola sobre as ancas, um cérebro que indaga: Pra que tanta beleza, meu Deus? Se a leveza do belo está na liberdade das ondas, que vão e vêm de acordo com seu próprio querer.
    Voltou a centrar seu pêndulo e após horas de viagem, dias de insensatez, vontades especulares, ele vadiou para os Pampas e tomou da boca da guria versos de chimarrão, churrasco de sensações, protuberâncias de pleonasmos. Eufêmicos gozos soaram galopantes, entre Serras e Mares. Sua Anita Garibaldi.
      Acabou dentro da Casa das Sete Mulheres, enredado, espada em punho, partiu o último coração.
     Retornou, atravessou sua rua e no atelier romântico começou esculturar, em cores, a pintura da mulher de retalho feita, de tantas fêmeas famintas, numa moldura retangular:  Vênus em quebra-cabeças, para poder admirar, naquele surrealismo na parede do seu quarto e mulherar-se para sempre, desejando esquartejar mulheres, amputando em si mesmo o homem que nunca quis ser. Apoiou-se sobre saltos e atirou-se fora dali.
      No último verso, iniciou um poema chamado Verdade, brindando a mentira que sempre o afagou.
Em resposta a Hamlet, gritou: _ Eu não sou mais uma questão. Eis-me.