ARQUIVENTO

BONS VENTOS A TODOS!!!

terça-feira, 30 de outubro de 2012


Entre um barulhar quieto
e o calado  chiar
há   um grito de silêncio

A palavra cresce
sacode o sentido
explode e muda segue

Ruído de amor
recolhe os dizeres
rumoreja a perda

viúvo de motivos
o sentimento condenado
é som da ausência

O vento canta
em dobras silentes
amordaçados desejos










segunda-feira, 29 de outubro de 2012
  
Os livros me alimentaram  
 e até hoje matam minha fome.



  Queridos companheiros,sempre, despeço-me de vocês, quando chego a última página, escrevendo a estação do ano e o mês que termino a leitura, mas desta vez resolvi misturar estações e entre um solstício e um eclipse declarar a minha fraqueza, meu desalinho, meu sorriso frouxo e a minha repleta dose de endorfina ao construir um primeiro ângulo entre nossos olhares e o brilho de nossas retinas, diante do reluzir da capa de cada um de vocês, mesmo quando opacos e envelhecidos, numa prateleira de Sebo.
 Não conseguirei falar de todos, mas citarei alguns casos amorosos, que carrego, até hoje, como rito de iniciação, mudança de ciclo ou amantes que visito, inesperadamente, ou trago pra minha cama no meio da noite, ou numa tarde chuvosa, onde o meu olhar reencontra algum de vocês, em plena carência, e pedimos-nos.
   Sou tão literariamente promíscua que minha mesa de cabeceira é habitada por no mínimo três livros que leio simultaneamente, toda noite,antes de ter meu sonho predileto: minha fantasia intelectual de uma biblioteca, onde basta eu desejar um assunto e nasce um livro com mesmo tema na prateleira.
 Ultimamente, tenho me dedicado a três livros que não identificarei, para não desencadear ciúmes, pois a pouco ocorreu uma rebelião nas prateleiras, porque chegaram novos amigos e tive, por isso, que fazer algo que dói em mim: escolher.
   A escolha é um exercício de liberdade que nos custa superar nossa própria escravidão. Porém, nunca fui egoísta com vocês, sempre procurei ter uma relação aberta, desprendida de haveres e condições, dividindo-os com quem quisesse praticar com vocês o prazer da leitura.
    Tudo que resolvi dizer, nesta carta, não traduz a importância que vocês têm pra mim, pois assistiram fechados muitos episódios de minha vida e abriram minha alma, pra infinitas possibilidades. Penso, se minha estante falasse.Entre vocês escondi, desde cedo, tímidos poemas, prosas desconexas, confusão de palavras guardadas, como folhas secas e pétalas e flores, depositadas como lembranças subscritas. Alguns entre vocês chegaram a tal cumplicidade, que foram rabiscados com reflexões existenciais, provocadas em mim pela erupção de idéias, sentimentos,comprometimento com os narradores, personagens, ou eu líricos dos poemas que ainda me emocionam, quando eu releio cada texto.
    Nenhum texto é impenetrável, como nenhum leitor é insensível, assim sempre coabitamos segredos conficionais e de nossos sub textos nasceram análises, releituras, intertextualidades, que são outros nomes para o desdobramento do amor literário, carregado  pelo prazer que ecoa, gerando os processos infinitos do efeito dominó que há entre o pensamento e a palavra.
    Meus melhores amigos, talvez não saibam (embora eu creia que tenham sido criados para isso),o quanto interferiram em mim, ou me fizeram mudar.Revolucionaram idéias e conceitos, me ensinaram a enfrentar preconceitos e a revirar a minha vida e descobrir minha própria literariedade. A identificação com autores, personagens tão afins comigo, tão especulares, opostos e adversos quebraram as fronteiras entre a minha leitura e a leitura de mim.
Provocadores e inversores da teoria da recepção promoveram uma simbiose e capturara-me pra dentro de vocês. Misturaram o ser-leitor com o ser-literário.
     Eis, aqui, meus inspiradores, minhas últimas considerações sobre a importância de terem me dado asas e colaborado que me lançasse, me transforma-se e me sentisse capaz de tornar-me transformadora: Coração Selvagem de Clarice Lispector, Memórias póstumas de Brás Cubas de Machado de Assis,Dom Quixote de Cervantes, Hamlet de Shakespeare, Sertão Veredas de Guimarães Rosa, A rosa do povo de Drummond, Operário em Construção de Vinícius,Eu de Augusto do Anjos...Dostoiévski,Neruda, Cortázar, Puig, Garcia Marques...fora outros contemporâneos que aprendi amar, como: A Louca da Casa de Rosa Montero e a Sombra do Vento de L.Záfon...Confesso que sou infiel a todos vocês.
      Adotivas criações, que tomo como meus, vocês fizeram tatuagens corrosivas em minha memória, onde se organizam títulos e nomes registrados, eternamente em mim.  Respirei os aromas que ofereceram, senti os sabores, na pele percebi o calor e o frio, vi noites e dias, ouvi vozes entre linhas e me equilibrei e cai sobre  as palavras que escalei, reconhecendo em suas capas a espada que trazem no bojo.
         
      
sábado, 27 de outubro de 2012



"O limo: poeira dágua.
Cinza: poeira do fogo."
 G. Bachelard









...peneirada a montanha
desfaz-se a paisagem:
poeira azul.


...a chuva fina
 peneira nuvens
 sobre cabeças
 desanuviadas


a luz desses olhos
que não há...
peneira a noite
enfrentando o dia


o maldito peneira
o bendito silêncio:
a poeira poética
do eco dos sentidos


desejo: poeira de carne
morte: poeira do corpo
palavra: pó do poeta






         
         
           










  Ele era insuportável. Era o que Ela dizia, sempre que encontrava sua melhor amiga. Não havia nenhuma razão para continuarem dormindo na mesma cama, mas nada mudava naquele inferno de cada dia, onde eles se espetavam e cozinhavam em banho-maria aquela relação.
   Uma manhã, Ela apareceu num discurso diferente:
 _Agora será suportável a presença dele.
   O que causou enorme surpresa em sua amiga, que abruptamente perguntou:
_ Como assim?
   Ela respondeu com firmeza:
_ Ele tornou-se um retrato na parede.
    Algum tempo depois, a amiga foi visitá-la e sem resistir curiosa:
_Onde está a imagem do insuportável?
_Nem o prego suportou, disse rindo a amiga, ele acabou estilhaçado e aproveitei para a reciclagem.                 Agora tenho um exemplar de um homem de verdade, que todos os dias me olha nos olhos.




terça-feira, 23 de outubro de 2012

Corri pela chuva
não quero mais
teu sol, nem sal

Quero da mão a luva
da escrita a tinta
e da água o gosto
não te quero mal

só que não minta
sobre o sabor da uva
e não esconda o rosto
por não ser igual

parte o verso e pinta
refaz essa curva
vira o nó da poesia
tome um madrigal

Corri pela chuva
bebi o temporal
estiquei-me ao vento
livre no varal


segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Tecido de asfalto
entremear de liberdade
e assombro
em fios de através
rede de movimentos
insanos
busca de horizonte
ao revés
sem ter pra onde
trançado pelo vento
o caminho
se esparrama
na curva trincada
fio à fio
veste a paisagem

sábado, 20 de outubro de 2012

Os postes trançam as nuas ruas
terço beneditino
os prédios latem alarmes
louvores noturnos
e tudo é madrugada
trevas brilhantes

o dia vai longe
o céu distante
o tempo cobre-nos
semeadura de palavras
e nem ouve nosso silêncio
na epifania premeditada

gritos no deserto do arrependimento
sem perdão
pelos teus santos pecados obtusos

nunca a noite foi tão azul
cobrindo o manto de lavas
abrem-se estradas
covam-se vidas
crucificação do amor

o vento arde
em todas as coisas
de tanta vontade

pede a Deus
pra pecar novamente:
o pecado está
em perdoar-se
sexta-feira, 19 de outubro de 2012
Presente  do meu aluno ...



   E o vento soprou...sobre a caixa de livros, empoeirados com o passar do tempo. A procura de outro objeto, não pretendia achar a caixa, já esquecida, mas me senti envolvido a voltar a minha infância, com aquela caixa em mãos, como um pedaço do tempo.
   Quando abri a caixa, nela encontrei meu primeiro livro pequeno, com figuras essenciais para um livro infantil. Folheei as páginas, e delas saíam memórias que despertavam algo adormecido em minha mente. Era como se as figuras reavivassem um pedaço da minha infância e me fizessem  esquecer as preocupações do dia a dia. Era como voltar a ser criança.
   Num mergulho mais fundo, pude encontrar, já velho, meu primeiro romance, com várias páginas marcadas pelos respingos de lágrimas, por todas as vezes que foi lida uma cena forte de inexprimível amor...ou por momentos felizes, em que envolvido pelo livro senti a emoção dos personagens ao alegrarem-se, demonstrando seus sentimentos.
   Voltei para o cotidiano, saindo do túnel do tempo, guardei os livros e fechei a caixa. O pedaço de tempo se desfez em minhas mãos. 
   E o vento soprou sobre a memória...

...Herick Marques,  
aluno da E. M .Prof. Paulo Freire.
segunda-feira, 15 de outubro de 2012



        Quando minha filha, aos 10 anos, fez-me esta pergunta, pensei que fosse ter dificuldade para respondê-la, mas eis que de súbito eu a respondi: 
       _ Pelo mesmo motivo, que sou mãe, minha filha, por amor. E ela insistiu:
       _Amor igual ao que tem por mim? 
    _Não, amor por educar, dividir experiências, conhecimentos, aprender e errar, tentando acertar. Juntar o que eu aprendi, com o que eu sinto, acredito, detesto, evito.  Sensibilizar... é isso. Quem vai ser professor, quer ser um tocador de almas, por isso entendo essa profissão (ou missão) como um sacerdócio, ou simplesmente como uma afinação de instrumentos, pois:  “...viver é afinar um instrumento de dentro para fora de fora pra dentro”.
               O professor é um ser humano comum, cheio de dúvidas, problemas, medos, insatisfações, mas, simultaneamente, temos o que outras profissões talvez não tenham, por subestimar o contato com o outro: a visão da construção e da evolução do aluno que atravessa pelo corredor menino, menina (imaturos independente da idade) e de repente, nos cumprimenta como um homem ou uma mulher (prontos para a luta). Trabalhamos com o tempo, usufruímos dele e podemos observá-lo com o mesmo carinho, que um pai ou uma mãe observa o seu rebento crescer, florir, dar frutos. Temos a sensação de que nossos alunos nascem de nós, não saindo de um útero, mas das cavernas da insegurança, dos becos dos descrédito, das grutas da indiferença, ou, simplesmente, da leitura de um livro, de um texto, ou daquela pergunta (Ah! Aquela que esperamos três anos, que ele fizesse). E daí nosso rosto, antes mesmo de respondermos, dispara o alarme do: _“Que bom! Ele conseguiu!”
                 Quantas provas incompletas, eu já trouxe em branco, para casa, porém com um desabafo na última folha: 
                “_É, desculpe-me, mas hoje não deu; _Eu estou com a cabeça cheia; _Tô apaixonado; _Meus pais estão se separando; _ Briguei com meu melhor amigo ou fui traído; _Pô, aí, não deu Prof, Minha mãe tá doente.” E a vontade de dar um 10 dez, pela honestidade é tão grande, quanto o ciúme, ou inveja mesmo, de não ter  a coragem de declarar isso, numa pauta a direção, ou no meio de uma aula, em tom de desabafo:
                   _“Hoje, eu tô de saco cheio!” Isso é sensibilidade. Isso é nos vermos e nos mostrarmos, como seres humanos. É preciso esquecer, definitivamente, que temos que ser produtivos, pois ninguém produz mais sentimentos do que nós e, quantas vezes, não nos respeitamos, nem nos damos o direito de dizer o que vai dentro da gente. Esquecemos ou fazemos com que esqueçam, até, que somos gente.
                  Por que ser professor? Há, muitas vezes, uma certa ironia nesta pergunta, pela desvalorização, pelo desrespeito e descaso, que nossa profissão vem sofrendo, ao longo do tempo. Mas devo afirmar, que nenhuma outra profissão me satisfaria, mesmo sabendo que nunca vou receber pelo que faço. E quiçá, nem mesmo, saber porque mereço, outras vezes, receber tão pouco, ou menos do que outros colegas, ou que outras profissões. Na verdade, eu já nasci professor, isso está além do meu mapa astral ou da minha carteira de trabalho, porque eu nasci, para amar e nesta profissão encontrei o meio de praticar esse amor.  Assim, mesmo quando não tenho grana para ir a um Congresso da minha área; não posso fazer aquele curso que tanto queria; vou a um Sebo; compro um livro; troco uma edição velha, por uma nova; vou ao museu; vejo uma exposição; quando sobra tempo, vou ao teatro; porque para o amor durar é preciso ser cuidado, regado, renovado. E o amor pela profissão, assim como a vida, parodiando Cecília Meireles, só é possível reinventado...
                 Por isso, eu acredito, que ainda que como professora não tenha, muitas vezes, dinheiro para satisfazer o teu desejo, filha, com o que quer vestir, ter, calçar ou fazer aquela viagem de férias, eu ganho o que muito profissional, mais bem pago, não ganha, tento investir ou revestir de vida, conhecimento e sensibilidade todo ser humano, que senta a minha frente, com o intuito de vivenciar a aprendizagem e com ele aprendo. Talvez pareça pouco para os que preferem a aparência, mas é que nós, professores de verdade, somos maestros e orquestradores da essência.
                Nossa papel é interferir, interagir, não criar os filhos dos outros, mas ensiná-los a serem criativos, diante das circunstâncias da vida. Tê-los como filhos, significa educá-los, prepará-los, preveni-los, não protegê-los da dor, do sofrimento, ou impedi-los de serem infelizes, simplesmente respeitá-los, para termos deles o respeito, que queremos que tenham por todos os que eles encontrarem pelo resto de suas vidas.                                                                         
                          
                 
        Cláudia de Souza Lemos     
                                                                                                                                                                       
Filha de D. Dora, doméstica que sonhava que  eu fosse
 médica  e de Seu Mário , jardineiro que queria
 que eu fosse Engenheira Agrônoma.


 PARA A PROFESSORA  LÉA 



   A carranca e os gestos curtos explodiam em palavras de ordem. Em plena ditadura Ela afirmava que devíamos lutar pela liberdade. Na minha ingenuidade pensava e sentia o sentido de li-ber-da-de como algo grande e importante, pra que a defendesse assim. 
  Todos os dias me perdia tentando entender o porquê dela nunca brincar, nem alegrar-se com nada. O máximo que fazia era esticar o cantinho da boca e levantar as sombrancelhas, quando fazíamos algum comentário sobre nossa vida de meninos. 
   Sempre nos aconselhava: _ Não sejam soldadinhos de chumbo, busquem o giro da bailarina. Ela é uma flor diferente nesse jardim. 
   No dia dos professores de 1976,  todos levaram rosas. Eu não tinha dinheiro pra comprar flores, mas sentia que rosas eram comuns pra Ela. Desenhei Flores Azuis, no avesso de um papel de presente do dia das crianças, e entreguei, discretamente, dobradinho em suas mãos, depois dos meus colegas de classe. Todos a abraçaram e beijaram, mais com receio do que por simpatia. Foi quando Ela, austera, pediu silêncio e disse: _ Meu abraço de Professora, que educa pra liberdade, vai para os olhos mais indagadores que já vi. Nesse momento, Ela atravessou a sala, veio em minha direção, me abraçou, olhou nos meus olhos tortos e disse: _ Minha Bailarina! E a cena daquele sorriso largo, nunca saiu da minha memória.


sábado, 13 de outubro de 2012



...exibe teu coração no mosaico
da parede que  não construiu
que guarda teu grito de gozo
e entre tijolos teu choro solitário

corre sob teus pés o mesmo rio
que passa por aqui
nunca verás e provarás nem

entre teus braços um vão
espaço metafórico
que torpedeou sem ser
derrame do herói

na tua sombra o tempo
se desfaz na baba
de uma fria lava
numa parede invisível
e sobre o sepulcro erra
enquanto cava
se enterra na poeira do vento
errante sopro
recortes de memoria
do indizível






Entre o espaço
sozinho
um cheiro de azul
celeste-marinho

só de nada
multidão de tudo
desordem calada
contemplação do absurdo

Thanatos
de fatos
Eros
de quero-quero

Psiquê
de que?

Olimpo
é um garimpo
inconsciente:
mito latente...

Vários de nós
acompanhados sós.





segunda-feira, 8 de outubro de 2012


Te odeio com tanto amor
que perdi-me
nessa fronteira de contrários
No silêncio uivante do vento
gritos fagulham meu errante desespero

Nunca fomos, porque fomos sempre...

Te amo com tamanho ódio
que encontrei-me
nesse emaranhado reflexo
Nós dois num mesmo estilhaço de espelho
refratários, repartidos...

Jamais seremos...
até que seja.

sábado, 6 de outubro de 2012
Sou a flor da pele
na minha pele de flor

festa perfumada
depilada de dor

aroma de pele florada
sentido de toda cor

Festa perfumada
depilada de cor

Aroma de pele florada
sentido de toda dor

Sou a pele da flor
na minha flor da pele









O sol tocou o seu rosto.
Ele não descongelou.
o sorriso guardou,
no olhar só,
um tira-gosto.

Outono político.
Promessas espalhadas.
Esperanças vazias,
sobre as calçadas.

O trocado
que é pouco
pela troca sem preço.
Um desabrigado panfletário
confeitado em seu endereço.

Segue a saga
do fazer invisível.
Deixa a carga
do despoder
sempre elegível.








quarta-feira, 3 de outubro de 2012

A menina se apaixonou por um homem
que o menino jamais será.
O homem se apaixonou por uma mulher
que a menina nunca haverá de ser.
O menino não deseja a mulher,
 nem o homem a menina.


A mulher deseja o homem,
o menino a menina.


Inquieto o vento não passa,
contém-se e sopra pra dentro.
Vai inchando e explode, transpira,
tece erupções cutâneas no tecido da vida.
Investe contra si, pra inflar, virar balão
e quer soltar-se em algum vale longínquo,
em busca de um atalho que o faça mutante.

Vento que faz caminhar o Deserto.
Emudece, só faz soprar...
Só quer ser vento de ventar
e entortar as linhas imaginárias,
que dividem nosso mundo.

                                   * É um vento que sopra dos trópicos em direção ao Equador.