ARQUIVENTO

BONS VENTOS A TODOS!!!

quinta-feira, 31 de outubro de 2013
   

Telas de Cleber Oliveira


    Os olhares se cruzaram na proporção inversamente oposta ao salão de exposições. As telas os observavam, traduziam, encantavam. Não se sabe quanto tempo pintaram as retinas, pincelando possibilidades mudas, desformes, enigmáticas. 
    Haviam-se na natureza desfeita da geometria reciclada de formas desconexas. Enamoravam-se repletos de um aroma de galeria. A vida sextavada e resistente amolecia seus corações, diante de cores encardidas de tanta arte. Vastos os movimentos, profundos dizeres silenciosos ecoavam na dimensão da descoberta comum do olhar transverso e da diversidade, que os aproximavam. 
    Entre eles, o camarim de traços e o caos do desejo. Desconstruções de encontros em despedidas antevistas, derrubando paredes, abrindo janelas, ocupados com os quadros do cotidiano preto e branco. Murais de ocupações e desvontades repletos de reticentes promessas de aquarelarem o cruzamento das cores e de adversidades: impossibilidades, desviadas mensagens, obtusos caminhos.
   Vesgos olhos de tanto tentarem enxergar um novo encontro, em submersas galerias, cavernas endossadas pela liberdade de esculpir querências indecifráveis.
    Viraram pinturas abstratas, ensimesmados pelo reinado de impedimentos. Nunca mais deflagrados pelas paredes, num corredor feito de tons de Ser.



quarta-feira, 16 de outubro de 2013
Para Você:



todas as formas são raras
nas suas incomunicabilidades
o espinho atravessa a pétala
rasgando a poesia na tarde

o cinema de nós
embolados no escuro
imagens do encontro
pelas galerias

tintas nas telas dos olhos
pinturas sensíveis
leituras projetadas nas paredes
quadros sonoros em bocas confusas

Vermelho e amarelo
alaranjando amadurecências

Vontades espalhadas
pelas roupas no varal
lençóis abanando o chão
vestido de cactos e flores

Tempera-se a esperança
num sábado cinematográfico
em cravo e canela
a voz perfumando a pele


domingo, 6 de outubro de 2013

O futuro é antigo...





A casa dormia.
As flores dançavam.
A família era uma ficção.
Os relógios não funcionavam.
O tempo: uma ilusão.
A grama se auto depilava.
Os falsos homens brotavam das barbas.
E as barbYES eram imperfeitas.
Não havia muros, nem limites.
O sol sempre estava a se pôr.
A lua querendo sair cheia, no fundo do quintal.
As horas entardeciam junto ao horizonte.
E eu esperando a vida começar...
sábado, 5 de outubro de 2013
Para o meu amigo Raul:







A sozinhez (esquece esta palavra que inventei agora sem querer) é inevitável. Foi o que Alice falou no fundo do poço: "Estou tão cansada de estar aqui sozinha!" O importante é que ela conseguiu sair de lá, abrindo a porta. "A porta do poço!". Só as criaturas humanas, nem mesmo os grandes macacos e os cães amestrados, conseguem abrir uma porta bem fechada e vice-versa, isto é, fechar uma porta bem aberta.
Paulo Mendes Campos


    Lembro o meu olhar sozinho, procurando alguém, quando eu nem sabia o sentido de estar sozinha.  A casa cheia.  Um entra e sai típico de casa popular. Todo mundo queria fazer parte da minha família. Éramos sete em casa: Papai, mamãe, meu irmão mais velho, minha irmã, meu irmão do meio, eu e meu irmão caçula. Um monte de gente frequentava nossa casa. Eram vizinhos próximos, mais ou menos próximos e distantes.
    Nossa família de longe aparecia de vez em quando. Nossos consanguíneos não pareciam querer fazer parte de nosso clã, como àquelas pessoas carentes, que chegavam lá em casa afirmando: _ Queria ser seu filho (a), ou seu irmão ou sua irmã, porque até quando vocês brigam é maneiro.
   Eu observava esse movimento e, às vezes, me pegava buscando o sentido dos detalhes. Existia uma cortina estampada, bem colorida, entre a sala e a cozinha, que insistia em fazer a fronteira entre dois mundos: a parte da frente e de trás da casa. Tudo era duplo. A cortina separava os outros e a gente, mas eu gostava de me enrolar na cortina e ficar naquela fronteira tênue, entre o meu mundo e o mundo dos outros.
  Foi ali, naquele paralelo, que descobri que a verdade é dupla. Meu caleidoscópio particular já sabia disso. Tudo se construía e se desfazia, em meus olhos, principalmente as lágrimas, pois eu chorava muito bem. As vezes usava a cortina como lenço, só me enrolava nela pra torcer as lágrimas.
   Veio o tempo: esse arrastão e comeu nossa infância, nossa adolescência, nossa vida adulta e toda impermanência. Azedou o relógio, o calendário. Despetalou-se a vida dentro da ampulheta. E eu lá contemplando o mundo e a vida.
  Sempre fui só, na minha, gostando de um cantinho, pra encostar minha cabeça. O tempo nunca fez chamada pra conferir minha presença. Simplesmente ele passou, deixando seu recado: _Enfrente-me, mas considere-me seu aliado.
  É nos olhos que o tempo passa mais depressa, neles são construídas as marcas de sua passagem. A solidão é essa consciência de tudo que existe em torno, em volta, fora e que olha pra gente, enquanto a gente se olhar.
  Quando a solidão veio morar comigo, eu nem tinha casa. Havia, apenas, o desejo de morar, em algum lugar, onde eu pudesse fechar os olhos e enxergar sua presença dentro de mim.

  Essa companheira, a solidão, nunca me deixou só.
quinta-feira, 3 de outubro de 2013


"O homem é a natureza chegada ao mais alto grau da consciência de si-mesma."
Shopenhauer



Essência do mundo
presente
força vulcânica
dinâmica e vital

nasce
luta
gera 
cai 
levanta
segue firme
na corda bamba
da  existência

esforço quântico
esgarçado ao meio
pelo infinito
múltiplo e indiferente

vestígio sem razão
emoção
que cabe
na vontade de viver

venta a vida
visível e invisível
pelos póros...

murmúrio da verdade:
essa pedra bruta,
impulso cego
do querer sem tréguas
a imagem moldada
na paisagem nua
tecida por  fios
nas ventanas.