controvento-desinventora

Suave sopro de vida

chega

deixa arrepiar

a alma

da poesia

ventando

além da margem

desinventando

ventonagem

na brisa

a viagem

entendendo

o mensageiro do vento

barulhando

ardendo

convertendo sentidos

para o sopro

invertendo a direção

libertando

as palavras

aliviar

controvento...

aos meus ouvidos


sábado, 26 de maio de 2012


"Assovia o vento dentro de mim. Estou despido. Dono de nada, dono de ninguém, nem mesmo dono de minhas certezas, sou minha cara contra o vento, a contravento, e sou o vento que bate em minha cara."     Eduardo Galeano

terça-feira, 22 de maio de 2012

Ventríloquos (ou ventríloucas)




Divinéia - Oi, Matilde! Sabia que o amor entrou em coma?
Matilde -  Sim, mas ele ainda respira.
Divinéia - Mantem-se vivo, através de um balão de perfumes à distância.
Matilde -  E continuará assim, para não identificar as flores do mal, que exalam essa fragrância.
Divinéia - Sigamos nos rastros literários da poeira poética, derramada sobre nós.
Matilde - Estou grudada nessa mesa, não consigo sair daqui ( acho que... nem sei se quero), nem receber ninguém.
Divinéia - Eu tenho poderes, Matilde, eu realizo desejos.
Matilde - Então me transforma em texto, em personagem, em livro, onde a paisagem seja uma estrada - em que me perca, pra me encontrar.
Divinéia - Mas vai abandonar sua mesa, seus livros, sua caverna?
Matilde -  Sigo as sombras, nesse marasmo...a quietude do pensar, abarulhenta minhas vontades.
Divinéia - Te ofereço o vento no rosto, Matilde, e a liberdade sem fronteiras...
Matilde - Continuemos, Divinéia, faça-nos bucaneiras em versos-livres...

domingo, 20 de maio de 2012

Epifania em do(r) maior



"É que agora sinto necessidade de palavras
e é novo para mim o que escrevo, porque minha
 verdadeira palavra foi até agora intocada.
A palavra é minha quarta dimensão."
 CLARICE LISPECTOR

  O desejo de palavrear é sem fronteiras e o vozear dos sentimentos torna-se  um tormento musicado, por isso quero cantar esse texto. Não vale a censura do pensamento, nem sonolentas advertências pagãs; só cabem, no intervalo da meditação desparafusada, um pigarro, um devaneio e quem sabe o ensaio de um sorriso, depois de um choro de verdade para ser feliz. Há em mim mais que uma palavra escrita ou falada. Existe nesse conjunto unitário de tantas coisas um murmurar pequeno, suave como um arroto. Este silencioso barulho, que range um batucado gotejar ,dentro de mim é frouxo, como o riso de uma criança maquiavélica de inocência.

 Desbravo essa pirâmide que se cala dentro de tanta gente, que sou, e escalo essas colunas gregas de sonhos, que se fortalecem e adormecem meus medos. Quero um significado simples, incoerente e excitante, para tanta vontade de viver que me mata, quando começa numa avalanche de vontades e termina sem acabar com a sede.

 Quantas letras, quantos parágrafos apagados dentro de mim, ibernando para um alvorecer mais leve. Tantos pontos a decifrar, tantas angústias quietas a transpirar, quanta vida guardada. Meus dias são dilatados sonhos, que acordam com o apito da mudança. O comportamento das orações descoordena o pensamento real do que deve ser dito. E o medo de inovar assusta a própria ordem desordenada do pensamento e das convulsões que acordam quebrando correntes. São tantas palavras acorrentadas, condenadas a não serem, que eu queria libertar em nosso poema guardado pelas sete chaves do desejo. Eu não direi como aprendi a ser estas palavras, só posso falar sobre como me ensinou a escondê-las.

O âmago do azul

Estou me fazendo. Eu me faço até chegar ao caroço.
Clarice Lispector













 Só, a liberdade sopra no outono das palavras,
que têm a fatalidade em si mesma.
A ventania me chama.
O erotismo telúrico chega vivo,
espalha-se no ar, nas águas, nas plantas, em nós
e da-me essa voz, encharcada de um vigor de tronco robusto,
de raízes entranhadas na terra viva,
que traz em ti.
Respiro a noite alta e o estranho me toma.
O mundo por um instante é exatamente
o que pede o meu coração.
Estou prestes a morrer-me
e as palavras certas me escapam.
Essa força interna 
- que faz brotar cada dia -
me libera.
Na morte do que não sou,
que na sombra não se revela,
a vida plena transborda.
O mundo tem a crueza nua dos sonhos livres
 e das grandes realidades.
Não conheço a proibição
e na madrugada pálida e arfante,
tenho a boca seca diante do que alcanço.
A minha natureza liberta de tudo
e eu morrendo.
A palavra final
veste-se de uma certa sabedoria
da fatalidade.
Ponho o diadema de pedras
retiradas das tuas doces grutas
e sigo...
A manhã resvala, em nós, distâncias.
O diamante me ofusca, me apaga,
me esquece.
Vou fazer um adaggio: Nascer é assim.