ARQUIVENTO

BONS VENTOS A TODOS!!!

terça-feira, 20 de março de 2012
Quero a escrita livre e torta,
quero o risco da guerra.
Só não quero o certo.
Quero a vida-poesia que erra.

Verso derretido na forja,
aniquilado pelos tropeços,
estrofes capengas,
sentidos avessos.

Quero recital numa boca
cheirando o mal
refletida numa vidraça quebrada
num domingo de carnaval.

Títulos desconexos
versos desescravizados
um poema contra-senso
sem presente, nem passado.

Quero teu beijo-literário
lambendo versos alheios.
Textos entre-dentes urrados,
berrando nomes feios.

Quero o Beco do rato
antes da reforma
meio fio do molhado
constrangimento da norma.

Não quero amor-mendicância
uma dor semimplantada
Quero a realidade na tela
alegoricamente pixada.

Quero você meu poema
com todos os exageros,
lançado a vida e lançando
metade de todos inteiros.

Quero teus braços livres
para abraçar-me feliz
querendo todos os calibris
de tudo que eu nunca quis...


segunda-feira, 19 de março de 2012
O silêncio nasceu
da falta de respostas,
da reclusão de si-mesmo,
da negação do sim.

Dói,
mas o barulho
aqui dentro
vai acabar.

Olhando a própria dor,
esqueceu de cuidar
dos meus machucados.
Sarei.
Não quero mais sofrer.

Amor não é apenas uma palavra ao vento.
quinta-feira, 15 de março de 2012
Para  Alissan


   No canto do quarto ela se aquietava, tentando ouvir da vida uma sugestão, sob aquela torrencial chuva e o vento que assobiava pela janela, encolhia-se toda, refém de si-mesma. Os livros sobre o tapete, para serem doados, e as histórias que viveram juntos a cada leitura. Vinis no canto oposto, guardavam os sons da adolescência, trilha sonora de tantos sonhos, de tanta coragem, tanto viço.
    Deslizava as mãos sobre as cartas, nunca mais escreveu tão macio, tantas promessas e juras de amor, como naqueles papéis decorados. Desenhos tão sonhadores protagonizavam o cenário de palavras pra sempre eternas. Não conseguia nem imaginar por onde ele andaria, só lembrava a sua mão decidida, tocando a sua vontade. Precipitava-se toda ao sentir o cheiro dele se aproximando, por trás, sorrateiramente, beijando-a na nuca, quando seus cabelos presos, aromatizados pela comida, se soltavam, ela virava-se e, o prenúncio da fome alimentava o desespero, já que comida não mais haveria, pois jaz a refeição do dia. Depois de todo carinho trasformado em livre expressão do desejo, eles saíam para almoçar fora, encharcados de tanta satisfação.
    Ela sente-se contagiada pela memória de tanto amor. Como pode um amor assim acabar? Por que alguém entra na nossa vida, pra sair dizendo que foi um equívoco? Onde foram parar tantas palavras confessas? Lareiras acesas? Vinhos com o gosto de uma noite inteira?
    _Ontem, ele estava aqui. Diz com todo fôlego que resta, no meio da boca seca, que não sabe mais o que fazer com tanto amor. Ainda bate no peito, que caminha até acelerar um "sentimento maior que o mundo"
    Aos poucos, ela se levanta e segue para a janela. Olha o dia, sente o vento e promete que vai arrancá-lo de dentro dela. Pega o batom vermelho, caminha decidida em direção a parede branca e risca com força tudo o que sente ainda por ele, fazendo uma boca de palhaço, com delineador desenha os olhos bem arregalados, o nariz de bola, o chapéu amassado. Faz-se um picadeiro. A alegria das cores contrasta com a tristeza, que ela tenta disfarçar.
    Hoje, pela manhã, tomou a decisão:_ Não quero tanto amor dentro de mim. Vou partir, sem ter como voltar. Tenho aeroplanos secretos de sair do fundo de mim e nunca mais te procurar. Até que a janela se abra, novamente, para o céu dos meus olhos e me faça acreditar, depois de aprender a confiar em mim, me amar e nunca mais deixar ninguém me atirar num canto solitário recheado de lembranças. Não quero mais o engano, a maldade e a traição, rondando dias-falsos, escondendo verdades - que me negou. Renascerei da minha própria dor.


quarta-feira, 14 de março de 2012
Dentro dessa boca,
em corpo pleno,
atravessa o vento,
poesia minha.
E livre, e louca
dá nó e faz laços
só de sentimento.

Ah! Poesia,
solta em mim seus versos
me faz ser vadia
cubra-me de excessos...

Derrame-se toda
sem métrica ou rima
dentro do meu dentro
por baixo e por cima.


Brote significados,
poesia linda, e sigamos...
Espalhe nossos pecados,
diz que nos amamos.





domingo, 11 de março de 2012
Para Germano

  Vem uma criança, entrando de rompante pela porta da frente, expulsando o adulto pela entrada dos fundos. Saem pernas curtas e sem medo de riscos, correndo de dentro de casa pra rua: pés-no-chão da alegria. Mãos maestram as cores dos brinquedos-imaginários, processando a magia da liberdade.
    Goza-se o prazer do olhar ingênuo e dentro dele uma vontade de viver e comer todos os doces, oferecidos pela guisa-levada de vitrines inacessíveis das vendas, doceiros e quituteiras. Mastiga-se a gula entre sorvetes e pipocas, cachorro-quente e mariola. A boca sempre lambuzada, as solas dos pés com cor-de-chão e os olhos aprumados ao céu, voando com as pipas-asas, desviando-se das marimbas.
    Os joelhos arranhados, machucados, tatuados pelas aventuras - descrição de travessuras. Cotovelos escurecidos de apoiar-se, para desafiar a gravidade, ver o arco-íris, ou o outro lado do muro. E, de soslaio, um olhar atento voltando-se sempre ao portão de casa, a espera de um grito sair pela porta em convocação para o retorno ao porto-seguro (proteção do Ser infante em regras e regimentos), quartel que cozinha o adulto que será.
    Se há chuva e lama, a alegria encharca o corpo, pra ser sovado, depois com palmadas ou castigos, ao penetrar a casa-adulterada limpa, todo sujo de molecagem, de estrepolia cheio e inflado de coragem.
     Banho tomado, lanche na mesa e a espera do pai, transformam a criança que foge e se esconde sob a mesa, para surgir o poeta, personagem nascido da acuidade materna, na representação de costumes. Num reflexo simultâneo, entra o tutor familiar pela porta de trás, sempre entre-aberta, a fim de espreitar a criança escondida em textos , que constroem contextos de fuga. Olhares severos guardam-na e aguardam para o combate, caso  outra criança queira pulsar, no meio da sala de estar.
   
sexta-feira, 9 de março de 2012
O tom pastel
me suavisa,
mas a falta de cor
me desbota...

Por que não pinta
e borda
na tela em branco
que te ofereço?

Preciso
do teu transbordamento
sincero
nem que seja
em preto e branco.

Sinaliza
alguma cor
ou vou ficar
transparente...






segunda-feira, 5 de março de 2012
                                                            
  O dado vai ser jogado
e o jogo vai ser revelado.
O jogo é de muita gente.
O jogo do meio ambiente.

Se o boneco não andar
 o jogo vai acabar.
Mas não é jogo de tabuleiro.
É jogo do mundo inteiro.

O mundo é um jogo
com estratégia.
Se não jogarmos,
vai acabar em tragédia.

Mariana Nunes da Silva
A menina-poeta

HIPERBOLADA
"Ando tão a flor da pele...que qualquer beijo de novela me faz chorar." Zeca Baleiro
                                                                                                                                                                                               
Um suspiro atrás de mim, já me atravessa  toda
O projeto de um grito, já é um escândalo
O esboço da vontade, já é desejo
O arrastar do chinelo, já me incomoda
O quebrar da sua unha, já o torna vândalo
Falar carinhoso comigo, já é um beijo...

É carência, é demência
Eu não sei o quê
Tudo isso a flor da pele
E eu nem sei porque


 A lâmpada que pisca, já é um relâmpago
A torneira que pinga, já é um dilúvio
Tudo é o que sinto, nada é o que vejo
Vejo um jacaré, em qualquer calango
Se fechar a janela, é subterfúgio
Se for gentil, já merece um beijo

É carência, é demência
Eu não sei o quê
Tudo isso a flor da pele
Eu nem sei porque

Qualquer vento mais forte, já me solapa
O raio do sol, já me faz arder
Se rir de mim, já dou um tapa
A  normalidade, já faz enlouquecer
Qualquer nome de rua, já é um meu mapa
Nem bem fez a pergunta, já quero responder

Tudo isso a  flor da pele
Eu nem sei porque
Acho que o responsável
É o meu querer
Qualquer informação já é um discurso
Se diz uma palavra, já é uma oração
Qualquer  farelo, já é um banquete
Pequena ajuda, já vira recurso
A batida na porta, é teu coração
Um jogo de palavra, já é um joguete

 Nada é tudo a flor da pele
Eu já sei porque
É a falta que eu sinto
De não ter você

Se encosta em minha pele
Eu já viro flor
Prá que o sentido se revele
Só o seu amor