ARQUIVENTO

BONS VENTOS A TODOS!!!

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014


Tempo: onde moram os quandos.
Adriana Falcão

Eu o encontrei
em meio a uma poesia
assim...na meia noite de um dia.


Eu o encontrei
no início de uma galeria
entre quadros, de repente... numa azulejaria.

Eu o encontrei
no fim de uma cantoria
num olhar em tom maior....no centro da alegria.

Nunca irão me achar
entre máscara e fantasia
sou feita de liberdade...em minha própria companhia.



https://www.youtube.com/watch?v=38LhGYfs_1g


sábado, 22 de novembro de 2014
(Fausto que me perdoe,
mas Cândido é fundamental.
Entre Goethe e Voltaire: o equívoco.
Dois complementares ou opostos?
É ser humano demais...
perspectivas avessas,
tecidas pela incoerência.)

Sou filha de jardineiro,
cuidador de uma família.
Herdei de Cândido o otimismo:
"é preciso cultivar nosso jardim."
ainda que a vida seja fáustica.
"Quanto o rumor de enxadas me deleita!"

De um jardim não se apaga o vestígio.
Ele está no meio de nós!
Cultivemos e aguardemos
o florescer da existência.


segunda-feira, 17 de novembro de 2014

      Mário Cesaryni - linha dágua


Atravessado o mapa
no olhar adivinhoso
riscou o líquido chão
dançando sem capa
em tom curioso
pendurou o coração                                                                                

entre estrelas azuladas
encheu a mão e soprou
um canto de alegria
espalhou pelas calçadas
fez da noite magia
partido alto entoou

Cruzou a paisagem
num astrolábio digno                                                                                                                      
desenhou o beijo
dono de coragem
mostrou-se signo
trópico do desejo



sábado, 15 de novembro de 2014



Há liberdade na solidão
coragem sagrada
feita de silêncio
contração de sumos
feito canetas tinteiros
carregadas de lembranças
sem escrever sequer palavra

Só tem um ar chuvoso
umidece estamparias invisíveis
curva joelhos em tecidos celestiais
beija o chão com a cabeça
é uma Yoga Poética

A pele do silêncio
essa casa da mudez
protege e usurpa o grito
de olhos vermelhos

A peleja me escurraça
e revigora a tez
O silêncio é meu próprio sangue.
O suor reclama cansaço
e nega a verdade

Perco o hábito de falar
Investigo a semente do silêncio
no ponto finalizador
encerrador de idéias
atos e palavras.

O olhar fala
faz careta
brilha
não há silêncio nos olhos
mesmo fechados
habita o dito e o interdito

Na fenda do calaboca
há chamas apagadas
incendiando sossegos
ebulição do todo
abolição do nada

O silêncio é uma ousadia
atletismo da inércia
palavra controversa
submersão da poesia
onde tudo



sábado, 8 de novembro de 2014


Nesgas lilás
mesclas de tudo
tonturas poéticas

entre linhas o desdito
sobre os versos o corpo letrado:
interface dos sentidos

o gosto das palavras salivam
insossas cores dos sabores primários
na leitura deliciam tons pastéis

Veste imutável das pontuações
passeia em campos floridos;
a pele não, só sente e se perfuma
esfrega-se in  natura

as nuvens desenham
a tradução das estrofes
sem rima, nem ritmo,
comunhão de haveres

E o vento dilata
a liberdade adverbial

Um gato no sofá
livros sobre a mesa
idéias espalhadas pelo teto
janela fechada: poesia adiada
pra dentro do eu lírico
sábado, 20 de setembro de 2014
 ...espécie de nó que quando é visível, 
enfeita, e quando é invisível, estreita.

Amarrados e descosturados
entre fios
embolados tecidos
de tudo
de todo jeito

entre o sol e a sombra
entre o mar e o rio
entre a raiz e a folha
entre a vida e a morte

laços de nós maquiados
nós emaranhados
aliança equivocada
atirada nas águas do tempo
num relógio de sol
em dia de chuva

depois do nada
fica o desenho invisível
de toda beleza
feita do cego sentido 
oculto nas mãos
do setor de embalagens





quarta-feira, 20 de agosto de 2014



Não mais bocas
nem (des)gostos
somente olhos distantes
sombras inquietantes

Almas precipitadas
posturas arquitetadas
projetos de confiança
ameaçada esperança

confisco de coisa nenhuma
descaso enamorado
deixou em nós chama alguma:
Descomeço Inacabado!
sábado, 19 de julho de 2014
Para Milan Kundera





Chove do céu da minha boca
estrelas molhadas
com sabor de via láctea
engolidas pela noite
até que o dia exploda
em meus olhos


Fatias do tempo
entortam os ponteiros
é  hora do infinito
incontável tempo d'alma
contemplação do Ir e Vir:
idades do Ser Eterno

Cambalhotas no centro de mim
pantagruelices de felicidade
Inversa a toda gente: sigo-me...
fujo a sobrevivelâncias abafadas
nos microcosmos cotidianos
cheios de amarguíces inúteis
vaidades tolas
disfarçadas em doces perfumes

Quero a livreza insustentável
do esvaziamento do sem sentido!



sexta-feira, 11 de julho de 2014


Ah, palavras!
Quanta vontade de sê-las...
Sendo assim eu-palavras,
consigo,então, vivê-las
e se viver é palavra,
palavreá-las inteiras...

Ave Lavras e pá,
pra torná-las sementeiras
no chão da poesia plantar
futuras palavras herdeiras
que a vida possa gritar
presente em tudo que há...
pés de palavrear

Colhendo a força poderosa
em poemas-estações
espalhar em verso e prosa 
na lavra do vento:
palavras, palavrinhas, palavrões...



*verso de C. Drummond de Andrade



terça-feira, 17 de junho de 2014

fotos: Cláudia Lemos

Ciranda de enganos
fluxo em descobertas
palavras, onde seu espelho?

íris estilhaçada
cadê a imagem 
que se inventou?

Tolice buscar
o pescoço da realidade
na guilhotina da ficção

Personagem rasgado
entre dentes 
mastiga o narrador mudo

Cala-se o texto.



terça-feira, 3 de junho de 2014




Não escuta, ouve meu desejo
encosta nestas palavras 
e sente a minha ternura
Ah se em troca de tanta felicidade
que me dás
pudesses perceber o perfume da minha gratidão
Ah se pudesses
- se soubesses-
meu coração inteirinho
Se deixasses a poesia contar
da infância e maturidade
desse meu carinho!

* título sequestrado de um poema de Libertinagem & Estrela da Manhã de Manuel Bandeira.
domingo, 1 de junho de 2014

O vento invade as palavras:
sentido da liberdade

sem direção e destemido
solta-as no descampado azul

são dançantes e superam-se
sopradas e engolidas

enchem-se e esvaziam-se
em promessas:
juras de não serem

pipa colorida da poesia
transparecem diáfanas

atravessam a linha imaginária
e as coisas que inexistem

mudam as marés
e desenham a margem
nonada das águas

constroem recifes
desfeitos em moinhos
de uma evocação
submersa entre nós


domingo, 25 de maio de 2014

A criança lambe as feridas
esquece o adulto voraz
desfaz lembranças perdidas
apagando as digitais

a sombra estica a criança
o adulto fica assustado
a luz lampeja esperança
cura-se o machucado

num mesmo Ser: o trocado
de um tempo esquecido
é o presente e o passado
num movimento indeciso

na parede um retrato
é balanço pendurado
o prego conduz ao fato
faz-se estilhaçado

Renasce dos olhos fitos
a imagem da confiança
a desfazer os conflitos
na saliva da criança

O adulto reencontrado
na pele infante ferida
toma todo cuidado
com o presente da vida


sexta-feira, 16 de maio de 2014

Enluarada  de dúvidas
buscando respostas
no fundo do céu...
da noite que pulsa

remendo crateras
colagem de outono
na pálida figura
dessa musa avulsa

...cai sobre a poça
a imagem refletida
toco a lua molhada
eis o meu segredo

desfaço a memória
da imagem pregada
sobre a minha cabeça
na ponta do dedo


quarta-feira, 7 de maio de 2014

sAUdAdE
ArrAstA
cOrrEntE

bEm rEntE
nEm sEntE

CoRReNTe
aRRaSTa
SauDaDe

SeM MaLDaDe
CoM VeRDaDe                                                                      
                                                                                 
quarta-feira, 16 de abril de 2014



Voltei 
de um mergulho submarino
em lenta profundidade
verde água-azul marinho
aquarela involuntária da dor
nada suave
tudo nada

Estou
molhada por dentro e por fora
de um choro estancado de susto
de falta de espera
secando a boca num sal de lágrimas
amarelo alaranjado-vermelho ressecado
pincéis tecidos na coragem
chão agreste
tudo chão

Sou
a medida dos contrários
a intensa fragilidade
conversão de sexta-feira da paixão
em terça de carnaval
remendo todas as cores do horizonte
fronteira de misturas
hálito do sol e sorriso da lua
eclipse catártico transparente
tudo nada
tudo chão

meu templo corpo me habita
na alma de todas as coisas
reverso lúcido de poréns
adversativas de vida e morte
Eu me empurro no balanço
rodo meu próprio pião
sou minha pipa sem rabiola
minha pena e palavra
meu escrito e minha sina
me gasto nos passos 
sigo prolixamente
cheia de simplicidade
chão de um céu plasmado
tudo e nada no azul-cor de infinito

Arco íris dos olhos
palavras feitas de cores indizíveis
"que seja eterno enquanto dure"






domingo, 16 de março de 2014


foto de Claudia Lemos




É preciso esvaziar o coração e a casa.
Entre embrulhos desembrulhar os sentimentos civilizados,
emoções catárticas e instintos vãos.
Urge, se faça presente a ausência.
É necessário desapegar-se do que nunca foi um pertence.
É emergência, abrir as janelas e descobrir as portas invisíveis.

Procura-se um movimento estático,
nascido da inércia dos ânimos 
a fim de fazer-se a luz do caos
e uma noite de paz
pra cabeça ficar leve
e a alma tranquila.

Busca-se a vida,
a vibração enérgica
da parte e do todo
do início à partida.

Descobre-se
o sentido da insensatez
o perigo da falta de risco
o pique-esconde da vivência
recheado de vontades adiadas.

Revela-se fotos do fundo da gaveta
lembranças do fundo da alma
palavras silenciadas pelo orgulho
e a certeza de que a dor
brota da ignorante escuridão
guardadora da sabedoria
do perceber-se eterno.




quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Chuva de sol
num céu nublado
de olhares azuis

Reflexos íntimos
de nuvens coletivas
cobrindo a realidade

Que pena!
A história acinzentada
pelo descaso
dos infames mandatários

Os azulejos gritam
pela dignidade
que escorre nas ruas esburacadas

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014





Explodem palavras
ao vento inquieto

Refrigera a alma
fomenta a indignação
o corpo rosna

Há suspeitas de curativos
feitos de silêncio

...mas gritar
ainda é o melhor
dos remédios

ainda que pra falar
tenha que se ouvir
e pra curar
se ferir