ARQUIVENTO

BONS VENTOS A TODOS!!!

sexta-feira, 27 de maio de 2011
                 Seus olhos gritavam um amor intenso, que não veio, que viria. Paginava o tempo, descartando impossibilidades. Acreditava na espera e naquele ponto de ônibus aguardava o encontro marcado, através de uma rede de relacionamentos. Era um Amor Facebook, sem face, nem disfarce.
                Comeu os dois bombons que levava para comerem juntos.
               Assustava a sua ansiedade nua, declarada a todos que se aproximavam:
              _ Eu tô esperando, meu amor! Ou devia dizer:
              _ Eu tô esperando meu amor.Quem sabe:
              _ Eu to esperando, meu, amor. Talvez:
              _Eu tô, esperando meu amor. Assim insistia...e errava na espera.
               A noite chegou o amor não veio. Esfriou. Não choveu. Amor não veio.
               Partida no primeiro ônibus que passou. Não leu o itinerário, o número, nem ligou para que horas eram. Apenas, perguntou: 
             _ Boa noite motorista, onde posso saltar, prá libertar-me de um amor que esperei, até agora?  Solícito, o condutor respondeu:
            _ Rua Carlos Drummond de Andrade, Poema: E Agora José?

   Leia e ouça:  e agora, José? - Memória Viva de Carlos Drummond de Andrade               

              

sexta-feira, 20 de maio de 2011
          Notava lágrimas correndo por trás daquele olhar, que vinha em minha direção; Havia naquela expressão, aparentemente insensível, um choro contido, um grito denso e ocluso. O seu jeito de caminhar firme e sempre em frente revelava, que não brincára de amarelinha e suas mãos trazidas próximas ao corpo, num movimento de proteção, pareciam nunca terem sido estendidas numa ciranda de rodas.
           Até a paisagem tornava-se enrijecida com a sua presença: Não ventava, não chovia, o sol não brilhava, nenhum raio se anunciava, nada acontecia. Somente Ela, num movimento retilíneo, que nos paralizava, tecia um monólogo com seu próprio silêncio, impregnando nossas tardes.
            Sua altivez, proporcional àquele soberano corredor, só seu, se estendia de uma ponta a outra por um tapete imaginário, tingido com sua cor predileta - Cinza Chumbo - prá Ela passar.
            Depois, que atravessava a nossa vida, invadia nossos pensamentos e sentidos, descongelávamos e piscávamos os olhos quando, no final do corredor, Ela tocava a campainha, que ressoava um tom de súplica, autorizando a todos nós, seus súditos, que corrêssemos, pulássemos, nos jogássemos e gozássemos o recreio por Ela.
           Cumpria sempre o seu papel, que a tornava indispensável. Nunca se pronunciava. Nada questionava. Apenas , e tão somente, seguia as regras e exigia, com sua presença, nos deter. Tementes de sermos iguais a ela,  éramos, pelas suas costas, o avesso de tudo que representávamos, diante de sua austeridade.
           Eu sempre acreditei que Ela, fora dalí, era o seu contrário, mas , às vezes, imaginava que não tinha família, nem casa, nem amigos, nem vida... que morava na biblioteca, na seção de livros de capa dura, empoeirados, despaginados,  ocos,  sem histórias prá contar - que ninguém tocava, ninguém descobria,  ninguém lia. À noite, pensava, antes de dormir, se Ela era alguém ou um personagem criado, para anunciar as tempestades nas nossas vespertinas alegrias, sinalizando, com o fim do intervalo, que tínhamos que esconder nosso prazer, nossa felicidade, em continência a sua disciplina amargurada, por um poder que a  tinha.

          Seu nome? Não lembro, porém em minha memória ficou desenhada: sem carne, nem osso, sem cheiro, nem sentimento...com Ela aprendi, como eu não devia ser. Ela foi minha melhor Escola. 
segunda-feira, 16 de maio de 2011


               Primeiro foi a palavra ou o pensamento? Sei que houve um contador...e o conto se fez páginas e habitou entre nós.
As primeiras imagens...desenharam em nossa memória a tentativa de perceber as coisas, alcançar os sentidos , entender a vida. O que pensamos das percepções, sensações, emoções? Por que falamos aquela e não outra palavra? O que morava na gênese do nosso dizer? Repetimos, fomos ourives de nosso silêncio, até explodirmos em palavras. E o ouvir foi nosso maior ensinamento. Atenção? Tudo. Entre ouvir e repetir: A criação.
              Na berlinda, egocêntricos copiamos...os que circulam a nossa volta e em nós. Primeiro, contar...os dedinhos, os aninhos, os objetos, as pessoas, ouvindo contarem histórias, acontecimentos, verdades, mentiras, episódios de coragem e medo, ancoragens...Cantar musiquinhas, acalantos, cirandas, música pop ou regionais ( por osmose ou overdose), até compreeendermos o canto. O nosso canto.
             Entre contar e cantar: o conto. Inventamos histórias, adornamos os fatos e vamos praticando, o que só mais tarde entendemos: Quem conta um conto, aumenta um ponto.
               A coleção de imagens e informações que recheiam nossa memória, um dia resolvem contar-se. O imaginário dá à luz, então, ao contador...que surge no palco. Cenário em branco, atuando a dança-transmissão entre o papel, ou a tela; a caneta, o lápis, ou o dígito apressado, que não pode deixar escapar nem uma gota do momento, desse parto de idéias, emoções, criatividade... surge o texto. Certidão literária: Conto.
                       
             
sábado, 14 de maio de 2011











Carregada pelo vento
é regador de alegria.
Sofre, se desespera
e sorri , se desfia
em versos leves
toda sua singeleza
de esposa de Ulisses
em bruta-delicadeza
tece o tempo de Alices
superfície- profundeza
só queria que ouvisses
ventar essa correnteza

que estica o arco-iris
e faz arco o horizonte
assim em permitires
faria do muro a ponte
carregaria o tempo
no varal do pensamento
e vestiria de cores
todo movimento
sendo vento de flores.
sexta-feira, 13 de maio de 2011

Tanta opção
a vida ofereceu
e nenhuma decisão

Seu corpo arrefeceu
o desejo parecia vão
e o tempo respondeu

Novo caminho e direção
que a si mesma prometeu
vã tornou-se a sensação
de ter um destino só seu

A aragem sopra emoção
do encontro que apareceu
rediscagem da ligação
entre você, seu destino e eu.
terça-feira, 10 de maio de 2011
Que areia é essa
que sopra em meus olhos,
o evento do vento
que cega?

Cobre a liberdade
de ver-me no mundo,
nesse espelho
concâvo-convexo
reflexo...sem nexo.

Esfrego a paisagem
para desembassá-la,
ela é um deserto
dentro e fora de mim.

Escorre sal
em meu rosto
azulejo de carne
que esconde
as células da verdade
e a cegueira me invade.

Não reconheço o mundo
o outro e eu
o meio.
Sou só receio
de não perceber-me mais
eu mesmo
ficar a esmo...

A íris enegreceu
minha vida,
sofre de falta de luz
e nunca mais vou te ver.
Você é agora
minha escultura arenosa
predileta e indecorosa.

Aos olhos do  vento
que me cega
constrói tua lucidez,
em minha escuridão
 toda tua luminosidade,
minha lúgubre caverna
é tua estrela guia.
Minha paralisia é tua ação
sou tua sombra sem direção.


sábado, 7 de maio de 2011
Queixo-me ao vento as inverdades
canto a flor as indelicadezas
atiro as águas as minhas vontades
lanço a terra todas as incertezas

o sol responde num abraço caloroso
o que a lua esconde atrás do clarão
e as estrelas gritam de um jeito charmoso
 que o silêncio jamais revelarão.

O Cosmos cheio de tantas tolices
ouve os planetas respeitosamente
e redescobre em disse- me -disses

que a natureza também mente
contra a  ciência e as crendices
enfeita a galáxia delicadamente.