ARQUIVENTO

BONS VENTOS A TODOS!!!

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013







Não percebo as curvas
meus olhos só alcançam horizontes
minhas asas plainam sobre a verticalidade
desenho parábolas nos céus de janeiro

nossos  caminhos
jorram  paralelas
jamais desaguarão
da mesma fonte
nem no mesmo mar
sexta-feira, 25 de janeiro de 2013



As palavras têm a leveza do vento e a força da tempestade.
Victor Hugo

  Entre os versos de Cazuza:
Vida louca vida
Vida breve
Já que não posso te levar
Quero que você me leve(...)
E  Zeca Pagodinho:
Deixa a vida me levar
Vida leva eu(...)


   Reescrevo V. Hugo: Viver tem a leveza do vento e a força da tempestade. Relembro o romance de Kundera: A Insustentável Leveza do Ser e teço uma costura entre tudo que isso é e o que há:

 Pelo fato da vida ser, relativamente, tão curta e não comportar “reprises”, para emendarmos nossos erros, somos forçados a agir, na maior parte das vezes, por impulsos, em especial nos atos que tendem a determinar nosso futuro. Somos como atores convocados a representar uma tragédia (ou comédia), sem ter feito um único ensaio, apenas com uma ligeira e apressada leitura do script. Nunca saberemos, de fato, se a intuição que nos determinou seguir certo sentimento foi correta ou não. Não há tempo para essa verificação. Por isso, precisamos cuidar das nossas emoções com carinho muito especial.

    O filme A Viagem (em cartaz nos cinemas) - dirigido por Andy Wachowski, Lana Wachowski, Tom Tykwerdo mesmos autores de Matrix e Corra Lola Corra - reafirma que o passado, o presente e o futuro refletem os crimes e generosidades que praticamos. Assim, deixar-se levar pela vida pode ter a leveza da consciência, sob o signo da generosidade, ou o peso do crime.
    Entenda-se crime tudo o que praticamos não só contra o outro, mas contra nós mesmos e por generosidade todo o bem que faz bem.
    A recompensa natural do bem torna leve o julgo. Quem flutua na leveza da vida não sofre com as maldades, porque afinal de contas o mal que nos fazem não nos faz mal.
    No final de cada caminho somos sozinhos, para medir o peso do que vivemos. Lembro, então de M. Quintana:

No fim tu hás de ver que as coisas mais leves
 são as únicas
que o vento não conseguiu levar:
Leveza
estribilho antigo
um carinho no momento preciso
o folhear de um livro de poemas
o cheiro que tinha um dia o próprio vento...

    Na balança da consciência cabem todas as intenções, vontades, semeaduras que realizamos em nosso jardim coletivo ou particular. Creio que muita gente morre por falta de leveza, de levar, deixar-se levar. Determinamos o peso das correntes que queremos arrastar.

O mais pesado dos fardos nos esmaga, nos faz dobrar sob ele, nos esmaga contra o chão. O fardo mais pesado é, portanto, ao mesmo tempo a imagem da mais intensa realização vital. Quanto mais pesado o fardo, mais próxima da terra está nossa vida, e mais ela é real e verdadeira.
Por outro lado, a ausência total de fardo faz com que ele voe, se distancie da terra, do ser terrestre, faz com que ele se torne semi-real, que seus movimentos sejam tão livres quanto insignificante. (A insustentável leveza do ser - A leveza e o Peso)

    O que carregamos define a profundidade dos nossos passos no chão ou desenha as asas da liberdade de sermos levados pela vida.  Assim tecendo levezas encontro as palavras de C. Meireles:
Leve é o pássaro:
e a sua sombra voante,
mais leve.
E a cascata aérea
de sua garganta,
mais leve.
E o que se lembra, ouvindo-se
deslizar seu canto,
mais leve.
E o desejo rápido
desse mais antigo instante,
mais leve.
E a fuga invisível
do amargo passante,
mais leve.

    A palavra nomeia a massa que carrega: pluma, asa, passarinho, folha seca, pipa avoada, brisa, vento, carinho, afago, toque, sorriso, generosidade, esperança, mas a que não tem peso e nos liberta é a  palavra LEVEZA.
terça-feira, 22 de janeiro de 2013

bebi da chuva
e deixei que escorresse
de mim...:

o que me viu
me tocou
quis me escrever
me odiou
me fez crer
me desenganou
me desconstruiu
não pode entender
não conseguiu
me admirou
me fez sofrer
ou me amou 

Tudo 
o que trouxe
a chuva  levou

pelo boeiro
do vazio
que deixou










nuas palavras

transparências vivas
gotas cheias de sensualidade
inundam os versos de sentidos

chove poemas lá fora
escorrem em minhas janelas
Pessoa, Bandeira, Drummond

estante de liquidez
derretem como relógios de Dalí:
todos os poemas de Augusto dos Anjos

boiam em forma de barquinhos
textos de Florbela
e como rosas as crônicas de Clarice

estanca a torrente
o céu seca em azul

arco-íris: Cora e Quintana
sopram estrofes ao vento
cantando suavidades lúcidas

minha alma lavada
segunda-feira, 21 de janeiro de 2013




aponta para o círculo
da rosa chá
bebida pelo olhar

há uma prece-pagã
...entre...

tentação da maçã
mordida na escuridão

 - sensações -
perfumes de cumplicidade
sabor de inocência

gosto de saber-se
florada fugaz.



quinta-feira, 10 de janeiro de 2013




A chuva só rega lembranças
as vésperas
do que não se deve esquecer...

_O que mudou?
_Nosso olhar,
embora a paisagem
continue a mesma.

Espelho do descaso,
descuido,
sem desculpas.

A sirene continua a tocar...
Até quando?


quarta-feira, 9 de janeiro de 2013


  À moradora de rua, rabiscadora de infinitos cadernos...







   Meu quarto não é azul, nem há sombra das persianas, muito menos noites vazias.
   Eu durmo em minhas calçadas particulares, entre olhares. Essa gente é voyeur da miséria alheia - que também é minha- , para se sentir são e salvo.
  Meu telhado não é de vidro, é concreto de realidade, sou um não-ser exposto. Evacuo num buraco, como todo mundo, sem margem pra me amparar, sem contornos, ou abraços.
  Tenho um corpo cheio de cicatrizes e uma cabeça cheia de histórias tristes demais, pra interessar a alguém.
  Minha liberdade está acorrentada a ser livre demais. Não tenho ninguém por mim, comigo ou para cuidar.
  Minhas mãos desocupadas são grossas e frias, desocupadas de cuidados, rabiscam sem escrever nada e não conseguem esculpir nenhuma beleza, elas só servem para cobrir meu rosto da vergonha de caminhar entre o meio fio e a marquise, diante dessa gente que passa e barulha um tique-taque em seus olhos, anunciando toda manhã...que: meu quarto não é azul, nem há sombra das persianas, muito menos noites vazias.


Quantos versos no desalinho
do horizonte sobre o mar

poemas plantados a margem
do caminho que perfuma
flores ausentes
...maresias.

Estrofes de luz
cegam o dia
e a alma imensa
de textos alados
mergulhados

a palavra desenha
o desenho da palavra
brotada das ondas
que toca o cais
e faz correr a vida...

A vela leva
livra livre
livro aberto sobre as águas.