ARQUIVENTO

BONS VENTOS A TODOS!!!

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012





O agora entorna
sobre o arame
que contorna
ponteiros invisíveis...

O tempo mastigado
por hora vagueia
na lambida deliciosa
do vento na areia

gotejam memórias
em azul desbotado
florescem horizontes
num brilho emprestado

o silêncio invade o céu
da boca encarnada
há um alarme gritando
entre o tudo ou nada






   

Ilustrador original: John Tenniel



   Em pleno aniversário de 150 anos de Alice no País das Maravilhas & Através do Espelho, leio o livro  No Bosque do Espelho de Alberto Manguel, que começa com o autor confessando  o seu encantamento, desde a infância, pelo mundo de Alice e oferece um passeio, fazendo travessias pela ficção e realidade, a partir de vários autores.
   Assim como o livro de Lewis Carrol, o texto de Manguel nos coloca num estado de constante surpresa. Caminhei pelo bosque de espelhos de mãos dadas com Alice e com o leitor-autor, revisitando: Borges, Cortázar, Vargas Llosa, assim como passeei na reflexão crítica sobre a arte e a produção literária.
   Agradeço o acesso a este livro,assim como, em Através do Espelho, ensinou a Rainha Vermelha a Alice:

Você deve agradecer de maneira bem sentida.

   Sigo ciente que a leitura mantém  a coerência no caos, não a evitá-lo ou extingui-lo, mas promovendo o progresso através da própria vertigem, da escuridão e direito a escolha, como o poético diálogo entre Alice e  o gato:


Podia me dizer, por favor, qual é o caminho pra sair  daqui?
Isso depende muito do lugar, pra onde você que ir, disse o gato.

  Lembrei com carinho do texto de Paulo Mendes Campos:



Para Maria da Graça


           Quando ela chegou à idade avançada de 15 anos e eu lhe dei de presente o livro Alice no País das Maravilhas.
            Este livro é doido, Maria. Isto é: o sentido dele está em ti.
         Escuta: se não descobrires um sentido na loucura acabarás louca. Aprende, pois, logo de saída para a grande vida, a ler este livro como um simples manual do sentido evidente de todas as coisas, inclusive as loucas. Aprende isso a teu modo, pois te dou apenas umas poucas chaves entre milhares que abrem as portas da realidade. A realidade, Maria, é louca.
           Nem o Papa, ninguém no mundo, pode responder sem pestanejar à pergunta que Alice faz à gatinha: "Fala a verdade, Dinah, já comeste um morcego?"
       Não te espantes quando o mundo amanhecer irreconhecível. Para melhor ou pior, isso acontece muitas vezes por ano. "Quem sou eu no mundo?" Essa indagação perplexa é o lugar comum de cada história de gente. Quantas vezes mais decifrares essa charada, tão entranhada em ti mesma como os teus ossos, mais forte ficarás. Não importa qual seja a resposta; o importante é dar ou inventar uma resposta. Ainda que seja mentira.
          A sozinhez (esquece essa palavra que inventei agora sem querer) é inevitável. Foi o que Alice falou no fundo do poço: "Estou tão cansada de estar aqui sozinha!" O importante é que ela conseguiu sair de lá, abrindo a porta. A porta do poço! Só as criaturas humanas, nem mesmo os grandes macacos e os cães amestrados conseguem abrir uma porta bem fechada e vice-versa, isto é, fechar uma porta bem aberta.
Somos todos tão bobos, Maria. Praticamos uma ação trivial, e temos a presunção petulante de esperar dela grandes conseqüências. Quando Alice comeu o bolo, e não cresceu de tamanho, ficou no maior dos espantos. Apesar de ser isso o que acontece geralmente às pessoas que comem bolo.
Maria, há uma sabedoria social ou de bolso; nem toda sabedoria tem de ser séria ou profunda.
A gente vive errando em relação ao próximo e o jeito é pedir desculpas sete vezes por dia: "Oh, I beg your pardon!” Pois viver é falar de corda em casa de enforcado. Por isso te digo para a tua sabedoria de bolso: se gostas de gato; experimenta o ponto de vista do rato. Foi o que o rato perguntou à Alice: "Gostarias de gatos se fosses eu?”.
Os homens vivem apostando corrida, Maria. Nos escritórios, nos negócios, na política, nacional e internacional, nos clubes, nos bares, nas artes, na literatura, até amigos, até irmãos, até marido e mulher, até namorados, todos vivem apostando corrida. São competições tão confusas, tão cheias de truques, tão desnecessárias, tão fingindo que não é, tão ridículas muitas vezes, por caminhos tão escondidos, que, quando os corredores chegam exaustos a um ponto, costumam perguntar: "A corrida terminou! mas quem ganhou?" É bobice, Maria da Graça, disputar uma corrida se a gente não conseguirá saber quem venceu. Para o bolso: se tiveres de ir a algum lugar, não te preocupe a vaidade fatigante de ser a primeira a chegar. Se chegares sempre aonde queres, ganhaste.
Disse o ratinho: "Minha história é longa e triste!" Ouvirás isso milhares de vezes. Como ouvirás a terrível variante: "Minha vida daria um romance". Ora, como todas as vidas vividas até o fim são longas e tristes, e como todas as vidas dariam romances, pois um romance é só o jeito de contar uma vida, foge, polida mas energicamente, dos homens e das mulheres que suspiram e dizem: "Minha vida daria um romance!" Sobretudo aos homens. Uns chatos irremediáveis, Maria.
Os milagres sempre acontecem na vida de cada um e na vida de todos. Mas, ao contrário do que se pensa, os melhores e mais fundos milagres não acontecem de repente, mas devagar, muito devagar. Quero dizer o seguinte: a palavra depressão cairá de moda mais cedo ou mais tarde. Como talvez seja mais tarde, prepara-te para a visita do monstro, e não te desesperes ao triste pensamento de Alice: "Devo estar diminuindo de novo". Em algum lugar há cogumelos que nos fazem crescer novamente.
E escuta esta parábola perfeita: Alice tinha diminuído tanto de tamanho que tomou um camundongo por um hipopótamo. Isso acontece muito, Mariazinha. Mas não sejamos ingênuos, pois o contrário também acontece. E é um outro escritor inglês que nos fala mais ou menos assim: o camundongo que expulsamos ontem passou a ser hoje um terrível rinoceronte. É isso mesmo. A alma da gente é uma máquina complicada que produz durante a vida toda uma quantidade imensa de camundongos que parecem hipopótamos e de rinocerontes que parecem camundongos. O jeito é rir no caso da primeira confusão e ficar bem disposto para enfrentar o rinoceronte que entrou em nossos domínios disfarçado de camundongo. Mas como tomar o pequeno por grande e o grande por pequeno é sempre meio cômico, nunca devemos perder o bom-humor. Toda pessoa deve ter três caixas para guardar humor: uma caixa grande para o humor mais ou menos barato que a gente gasta na rua com os outros; uma caixa média para o humor que a gente precisa ter quando está sozinho para perdoares a ti mesma, para rires de ti mesma; por fim, uma caixinha preciosa, muito escondida, para as grandes ocasiões. Chamo de grandes ocasiões os momentos perigosos em que estamos cheios de sofrimento ou de vaidade, em que sofremos a tentação de achar que fracassamos ou triunfamos, em que nos sentimos umas drogas ou muito bacanas. Cuidado, Maria, com as grandes ocasiões.
Por fim, mais uma palavra de bolso: às vezes uma pessoa se abandona de tal forma ao sofrimento, com uma tal complacência, que tem medo de não poder sair de lá. A dor também tem o seu feitiço, e este se vira contra o enfeitiçado. Por isso Alice, depois de ter chorado um lago,  pensava: "Agora serei castigada, afogando-me em minhas próprias lágrimas".
Conclusão: a própria dor tem a sua medida. É feio, é imodesto, é vão, é perigoso ultrapassar a fronteira de nossa dor, Maria da Graça.



Texto extraído do livro “O Colunista do Morro”, Editora do Autor – Rio de Janeiro, 1965, pág. 23







quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Todo poema tem suas sombras
de prateleiras empoeiradas
de livros comidos pelas traças
poetas feitos de eternidade.

Nem todo verso quer luz
a penumbra amplia os sentidos
a iluminação revela a cegueira
e dá valor a escuridão

Estrofes querem ouvidos
sem marcas de gritos
não querem falar, mas dizer
elas murmuram silêncios

A poesia é cega, muda e surda.
Só existe quando não há.
Não cabe na prisão das palavras
é livre demais para ser ...

Eu sou grande, contenho multidões.
Walt Whitman
Não sabes nada de mim
se pudesses compreender
que sou boa até ruim
poderias me conhecer

Não sabes nada de ti
nem compreende teu ser
como queres saber de mim
se não sabes nem de você

Ignoras o que sinto
finges como poeta
em versos de absinto

Vistes a janela aberta
invadistes o recinto.
Cuidado com a descoberta!









segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Enquanto em febre
leio palavras incendiárias
em 'Todos os fogos o fogo'
de Cortázar ...

palavras em lavas

e o texto queima em minhas mãos
suando um carinho molhado
a amenizar a agonia
congelando o tempo
soprando num afago
o fogo da poesia
domingo, 16 de dezembro de 2012


   


  Ela seguia sobre os paralelos soltos dos dias - mosaico caótico do tempo. Seus passos leves sapatilhavam a lama das palavras de carinho desenhados sob a chuva de insensatez. Havia luz debaixo do tecido de chumbo que cobria o céu.
   O azul no fundo da caixa  do infinito, num vinil lançado nas areias da paisagem desejoso de andar, até o fundo da praia morena, mergulhada nos olhos secos da platéia carpideira, que assistia a sua dor de chorar.
  Envelopes de promessas fugazes, como um sorvete consumido pelo vento, conferiram cartas e pertences, bilhetes e lembranças, para serem tragados no porão dos sentidos, engolidos em um querer-menino, escorrido pelos azulejos das submersas travessuras aprisionadas entre paredes.
   Encontros ocos e ecos de tudo, recheados de obtusas declarações, entre olhares-mudos e bocas lambidas pelo vazio de um espelho negligente e aparência viés de uma desconstrução cruel de um amor que nunca existiu,  nos intervalos de rejunte dos paralelos do chão do agora, apoteose de refazer o olhar, para não mais vê-lo pela janela encantadora de palavras apagadas, pela sombra que brinca com  sensibilidade arranhando-as, enquanto se disfarçam de bondade.
  Ela sentiu a mordida sorridente do seu coração amassado num papel - projetado por alegrias momentâneas e tristezas duradouras, no fundo da lixeira do camarim.
   Ausência de luz no palco de si - devassado pela ironia do fogo, aceso por lavas desgastadas em versos de um posfácio de gritos e gozos, nas fendas de parágrafos calados, jamais proferidos pela boca do texto, decifrados pelo Cruzeiro do Sul:  tecido de estrelas cegas pelo próprio monólogo umbilical.
   Grutas  inventadas, escorrendo em tinteiros, tomados por convulsões denegadas a esmo, numa busca insana de uma maturidade às avessas - negação do colo sufocado em poemas belicosos.
    Ave os escultores de luz, que permitem a projeção de sombras-poemas em constelações invisíveis!
quarta-feira, 5 de dezembro de 2012


Para meu querido Raul

Sou um pouco cora
um pouco lina

principalmente sou
teu sorriso oriental
a escada do morro de minha infância

subo os olhos ao céu
na tarde que avermelha
meus sentidos

Sou a encardida
em teus azulejos de abrigo

Em teus pincéis quebrados
a vontade de pintar o invisível

Nas estantes de palavras
os instantes de silêncio

Sou você e somos nós
coralinos sós


terça-feira, 4 de dezembro de 2012
Não quero mais errar
sem acertos
nem acertar sem erros
e desconcertos
???nunca
!!!sempre

Cadê o tempo?
Olha o tempo!

remanejadas estações
cheias de convicções
sobras de etiquetas temporais
coisas  e intempéries

Cadê o tempo?
Olha o tempo!

A espera de uma nova série
enfrentar o relógio do mar                    
mergulhando sem medo
nessa onda de não errar...

Enquanto isso:
é remar...e remar...





Para Ricardo Lacerda




folhas anoitecidas dentro do verde mosaico
o olhar da flor delicada entre cactos
o desenho das pedras no caminho difícil

- o céu sem janela -

a porta da amizade sempre aberta
o vaga-lume carregando a noite
o cansaço estirado no chão
o sorriso largo da paisagem

pés em águas de candeias
- revisitando nossas almas -
contaminadas pela liberdade