ARQUIVENTO

BONS VENTOS A TODOS!!!

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

          foto de Claudia Lemos


Meus olhos andam tropeçando
em paisagens tão lindas
que elas os engolem
e devolvem em cicatrizes
perspectivas coloridas
num jardim tatuado de flores eternas:

filhas das sensações semeadas,
no sentido do vento livre,
arrepiando a pele
nesse perfume entranhado
do ser pleno e desenhado
à pena da contemplação.

A Paisagem sou eu...
a paisagem sou Eu...
galopando sobre o horizonte
delineado pelo tempo,
buscando travessias.





segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Henry Matisse


 No rastro do tempo, tudo o que já foi, fomos, ou deixamos de ser. Seguimos em direção ao horizonte aquarelado, permanecendo imóveis por dentro, até que nossa infância se ilumina e o nosso adulto do ano  inteiro entra de férias: É natal!  ...Voltamos. Já não somos os mesmos, nos tornamos outra poesia.
  As lembranças - até elas - surgem com outra roupagem, ainda que com o sabor de rabanadas e cheiro de família = Todo mundo falando ao mesmo tempo e ninguém ouvindo ninguém: uma feira de contos, causos, piadas e saudades...
  Vamos as compras (de) comida, (de) bebida, (de) regalos e enfeites, em busca do presente do passado e querendo ser passado para o presente. O cenário, às vezes, conserva, à sombra da mesma árvore, a mesa, a exposição de receitas, o brinde do vinho sagrado, mas as memórias, neste momento, impregnam nosso espírito de uma sensação que  manifesta a nossa experiência no seio de renascer na ceia de prosperar.
  E, então, tudo o que desejamos a todos os nossos herdeiros é que continuem a Ser esse Universo Particular do Natal, celebrado no seio do nosso presépio e finalizado na Ceia de nossos últimos, desde os primeiros. 

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

É o meu elemento
essência que me liberta
brisa, ventania ou vento

suspira a força
que provoca e emana
ainda que torça

rasga o céu
desfaz e faz
a rima ao léu

em plural movimento
agita e acalma
total sentimento
é minha própria alma

Só ele me tem
abraça e conduz
desinventa também
controvento é
luz.


domingo, 8 de dezembro de 2013

              manacá de cheiro


Amor da pedra brotado:
cálculo abstrato
no concreto enraizado.

Lutou tanto pra nascer,
entre cores vivas rompeu
impedido de florescer.

O tempo foi regador:
ponteiro de lua e sol,
jardineiro construtor.

Em seu lugar a saudade
fez surgir um manacá
tornando-o realidade.

A chuva e a ventania,
seu  perfume espalha
carregado de poesia.

...à noite pela janela
estrelas testemunham
a magia tão bela:

a pedra se move,
abrindo em flor
o amor que a envolve.









domingo, 24 de novembro de 2013

foto: Cláudia Lemos

Um singular raio do sol
amanheceu-me
em pétalas
no jardim de um sorriso azul

Anoitecendo
a lua recolheu o brilho
e uma flor marinho brotou
em meu céu

Nas horas abertas
a chuva lança cores
em nosso quintal turquesa
para a florada passarinheira

Na semente do tempo
rasga-se o horizonte
e a cortina azulejada de estrelas
é a bússola dos nossos desejos

quarta-feira, 6 de novembro de 2013



A janela sempre aberta para um caminho distante
a preciosidade do tempo gesticulada na brisa
nenhum protagonista liderando a paisagem azul
rastros de folhas mortas, brotos paridos,
o chão preso a raízes e os olhos vadios
mergulhados em cores e doces nuances

teus passos ouvidos à dentro encharcam
a alma das coisas e dá sentido as horas
a espera emborcada sobre a mesa bebe
o adiamento da chegada, flor de quase,
de talvez - feita de incertezas e querências

nega-se o vínculo, a curva, o meio, o ponto
fronteira episódica bordada no silêncio da pele,
 na música do toque, na boca da palavra,
recheados pelo aroma de tantas impossibilidades
inviabilidades, incansáveis adiamentos e nuncas

portões para jardins babilônicos e surreais
álbum de espécies, fotos invisíveis
as pedras as árvores as mãos das gentes:
bússolas pra se perder, no próximo desencontro



domingo, 3 de novembro de 2013





 O sol da poesia lambeu a minha manhã.
 Estou quarando,até agora,buscando um sentido,pra essa delícia que é viver.
 Cada raio é uma palavra que não consigo escrever, iluminando os poros do texto que sou.
 Embrutece-me de suavidades esse calor que amolece o poema, derretendo-o na paisagem azulzinha: cor de horizonte recuperado.


quinta-feira, 31 de outubro de 2013
   

Telas de Cleber Oliveira


    Os olhares se cruzaram na proporção inversamente oposta ao salão de exposições. As telas os observavam, traduziam, encantavam. Não se sabe quanto tempo pintaram as retinas, pincelando possibilidades mudas, desformes, enigmáticas. 
    Haviam-se na natureza desfeita da geometria reciclada de formas desconexas. Enamoravam-se repletos de um aroma de galeria. A vida sextavada e resistente amolecia seus corações, diante de cores encardidas de tanta arte. Vastos os movimentos, profundos dizeres silenciosos ecoavam na dimensão da descoberta comum do olhar transverso e da diversidade, que os aproximavam. 
    Entre eles, o camarim de traços e o caos do desejo. Desconstruções de encontros em despedidas antevistas, derrubando paredes, abrindo janelas, ocupados com os quadros do cotidiano preto e branco. Murais de ocupações e desvontades repletos de reticentes promessas de aquarelarem o cruzamento das cores e de adversidades: impossibilidades, desviadas mensagens, obtusos caminhos.
   Vesgos olhos de tanto tentarem enxergar um novo encontro, em submersas galerias, cavernas endossadas pela liberdade de esculpir querências indecifráveis.
    Viraram pinturas abstratas, ensimesmados pelo reinado de impedimentos. Nunca mais deflagrados pelas paredes, num corredor feito de tons de Ser.



quarta-feira, 16 de outubro de 2013




todas as formas são raras
nas suas incomunicabilidades
o espinho atravessa a pétala
rasgando a poesia na tarde

o cinema de nós
embolados no escuro
imagens do encontro
pelas galerias

tintas nas telas dos olhos
pinturas sensíveis
leituras projetadas nas paredes
quadros sonoros em bocas confusas

Vermelho e amarelo
alaranjando amadurecências

Vontades espalhadas
pelas roupas no varal
lençóis abanando o chão
vestido de cactos e flores

Tempera-se a esperança
num sábado cinematográfico
em cravo e canela
a voz perfumando a pele


domingo, 6 de outubro de 2013

O futuro é antigo...





A casa dormia.
As flores dançavam.
A família era uma ficção.
Os relógios não funcionavam.
O tempo: uma ilusão.
A grama se auto depilava.
Os falsos homens brotavam das barbas.
E as barbYES eram imperfeitas.
Não havia muros, nem limites.
O sol sempre estava a se pôr.
A lua querendo sair cheia, no fundo do quintal.
As horas entardeciam junto ao horizonte.
E eu esperando a vida começar...
sábado, 5 de outubro de 2013
Para o meu amigo Raul:







A sozinhez (esquece esta palavra que inventei agora sem querer) é inevitável. Foi o que Alice falou no fundo do poço: "Estou tão cansada de estar aqui sozinha!" O importante é que ela conseguiu sair de lá, abrindo a porta. "A porta do poço!". Só as criaturas humanas, nem mesmo os grandes macacos e os cães amestrados, conseguem abrir uma porta bem fechada e vice-versa, isto é, fechar uma porta bem aberta.
Paulo Mendes Campos


    Lembro o meu olhar sozinho, procurando alguém, quando eu nem sabia o sentido de estar sozinha.  A casa cheia.  Um entra e sai típico de casa popular. Todo mundo queria fazer parte da minha família. Éramos sete em casa: Papai, mamãe, meu irmão mais velho, minha irmã, meu irmão do meio, eu e meu irmão caçula. Um monte de gente frequentava nossa casa. Eram vizinhos próximos, mais ou menos próximos e distantes.
    Nossa família de longe aparecia de vez em quando. Nossos consanguíneos não pareciam querer fazer parte de nosso clã, como àquelas pessoas carentes, que chegavam lá em casa afirmando: _ Queria ser seu filho (a), ou seu irmão ou sua irmã, porque até quando vocês brigam é maneiro.
   Eu observava esse movimento e, às vezes, me pegava buscando o sentido dos detalhes. Existia uma cortina estampada, bem colorida, entre a sala e a cozinha, que insistia em fazer a fronteira entre dois mundos: a parte da frente e de trás da casa. Tudo era duplo. A cortina separava os outros e a gente, mas eu gostava de me enrolar na cortina e ficar naquela fronteira tênue, entre o meu mundo e o mundo dos outros.
  Foi ali, naquele paralelo, que descobri que a verdade é dupla. Meu caleidoscópio particular já sabia disso. Tudo se construía e se desfazia, em meus olhos, principalmente as lágrimas, pois eu chorava muito bem. As vezes usava a cortina como lenço, só me enrolava nela pra torcer as lágrimas.
   Veio o tempo: esse arrastão e comeu nossa infância, nossa adolescência, nossa vida adulta e toda impermanência. Azedou o relógio, o calendário. Despetalou-se a vida dentro da ampulheta. E eu lá contemplando o mundo e a vida.
  Sempre fui só, na minha, gostando de um cantinho, pra encostar minha cabeça. O tempo nunca fez chamada pra conferir minha presença. Simplesmente ele passou, deixando seu recado: _Enfrente-me, mas considere-me seu aliado.
  É nos olhos que o tempo passa mais depressa, neles são construídas as marcas de sua passagem. A solidão é essa consciência de tudo que existe em torno, em volta, fora e que olha pra gente, enquanto a gente se olhar.
  Quando a solidão veio morar comigo, eu nem tinha casa. Havia, apenas, o desejo de morar, em algum lugar, onde eu pudesse fechar os olhos e enxergar sua presença dentro de mim.

  Essa companheira, a solidão, nunca me deixou só.
quinta-feira, 3 de outubro de 2013


"O homem é a natureza chegada ao mais alto grau da consciência de si-mesma."
Shopenhauer



Essência do mundo
presente
força vulcânica
dinâmica e vital

nasce
luta
gera 
cai 
levanta
segue firme
na corda bamba
da  existência

esforço quântico
esgarçado ao meio
pelo infinito
múltiplo e indiferente

vestígio sem razão
emoção
que cabe
na vontade de viver

venta a vida
visível e invisível
pelos póros...

murmúrio da verdade:
essa pedra bruta,
impulso cego
do querer sem tréguas
a imagem moldada
na paisagem nua
tecida por  fios
nas ventanas.




sexta-feira, 27 de setembro de 2013



...fiz um poema rimado
pra irritar a poesia rebelde
que anda dentro de mim
querendo pular na jugular
das palavras subliminares

É inverno em minha primavera
o concretismo esbelto
arrancou minhas raízes
pisou nas flores, comeu as sementes

...fiz um soneto vazio
pra profanar toda criatividade
negada em pedidos de desculpas
escritos nos túmulos devassados
da insensatez promíscua
do uso leviano dos sentidos e significados

É verão em meu outono
e a flexibilidade vaga
nas entrelinhas do eu lírico
é um mímico sem mãos
com o corpo neon
e a expressão opaca

...fiz esse texto colando os restos de mim
em tudo que não viu, ouviu, sentiu
e jamais será poético 
em  quaisquer estações 
que passar pela tua janela.


domingo, 22 de setembro de 2013
Sempre haverá primavera
nos olhos de quem semeia a vida.







Há flores sem fim
na estação mais bela
primaverou em mim
quando abri a janela

o perfume da vida
amanhecendo devagar
entardecendo florida
nessa estação de brotar

nesse chão semeado
ver crescer e florir
no quintal espalhado

o vento a colorir
esse jeito encantado
da  natureza a sorrir




sexta-feira, 13 de setembro de 2013
Árvores fazem meus olhos respirarem
minha pele na brisa vive esse amadurecimento
resvala a vida as vontades sementes
e brotam verdades trançadas por fortes raízes

Ah! É preciso regar o chão
sujar os dedos, desenhando a flora
erguer no íngreme a grama
segurar o verde nos olhos
dessa botânica sensível
que nos faz jardineiros
de nós mesmos

a tecitura das raízes
sob o solo passeia
como as folhas sopradas
pelo outono de árvores vazias
a espera do novo

as dores envelhecem, o tempo passa
e o florão resiste chorando no orvalho
dançando  na brisa
renascendo nos frutos
da continuidade
e da sabedoria rica e simplicidade
de que fomos feitos de olhos
que passeiam em flores
nessa manhã de sol e azul.

terça-feira, 3 de setembro de 2013
                                                                                           Queda-te para o alto
e me encontra nas asas das folhas ...


Lamentável ausência
da lista do horto pessoal
entre raízes, risos e rosas
especiárias de Vênus enigmática
em tempos ensossos de elegância,
gentileza e simplicidade...
formas catadas no impossível
simetricamente calculadas
na cidade do corpo descalço
cercada de espadas e cores

Nada esvai das minhas retinas
veias misturando o vermelho-amarelo
feitas de sensações cuidadosas
sutis insígnias aflitas na calmaria
de descobertas jamais vividas

Intenções luminosas
no segredo das chaves
abrindo janelas
apagadas ao luar de agosto
por um som inaudível
um lugar invisível
num quando eterno
de deixar-se Ser

Desgarrados na culminância
da acessibilidade simples
do enredo forte do desejo
dominado por inventivas
carregadas de fantasmas e culpas,
memórias e traumas
de inocentes controvérsias

Facas cegas
desgastadas pela vida
em monólogos interiores
feitos de perguntas sem respostas

Debaixo do guarda chuva
há sombra do sol insiste
na intolerância do dia-a-dia
porque se sabe feliz
diante das dificuldades e espera...
no porto das expectativas
horizontes filosóficos
mastigam as horas insanas
de tantos paradoxos singulares
regados no quintal

O vento sopra das gavetas
as palavras guardadas:
palavrões, palavruras,
palavrórios, pá, lavras
giram no primoroso cata-vento
fincado no meio do jardim
numa troca prometida sobre o papel
de poemas e desenhos
sobre a travessia das pedras
cravadas no chão
criando travessuras e madurezas
crendo nas sementes soterradas
no respeito daquilo que brotou...

na pele-parede
reveste-se o corpo da casa
a continuidade na ruptura
intimidade na distância
da silenciosa saudade
da muda plantada
na sombra de um dia frondoso
folhas costuradas no solo
onde ainda há... árvores sonhadas
acariciadas pelo brisa da generosidade,
gratidão e perdão por sermos imperfeitos
diante da possibilidade de tanta beleza




domingo, 1 de setembro de 2013
A minha Semente ELOÁ, árvore cada vez mais frondosa.







    Força feita de fragilidades visceralmente instantâneas, construindo sua muralha flexivel de Ser - que vai e vem, entre verdades e criações vitais, para continuar e amar, deixando-se ir...
    Sapatos-descalços, socos-verbais, recheios carinhosos de desejos e dedicação. Armários sem portas, ventanas digitais. Sabe o que tem à vista e aguarda à prazo, liberta pela intensa vontade de voar. Asas feitas de chão, que raspam o azul do céu.
     É Ela...É Ela, minha flor aromatizando canela...canteiro de tulipas no peito, prateleira de receitas pra tudo. Tempero pra quem ama.
     És, simplesmente. Assim como o tempo colhido entre dores, cores e experiências, em folhas secas a caminho da escola pra casa e de casa pra vida. Agora, constrói sua árvore, enraizada em certezas, sem negar dúvidas. Somos a sombra da nossa própria árvore. Lembra?!
      Colhemos com as próprias mãos as sementes que desenham a nossa floresta de evolução,
que prometemos. 




Para Vini e Jô: Obreiros do Bem


Não há vazios
nas esquinas em formas de letras
as pessoas desenham as gentes
prescrevesse a esperança
latejando no horizonte
olhos  escondidos
por retinas ocupadas
em ver adentro

Não somos
senão o que cremos
a beleza emoldura
sonhos vastos ou pequenos
que devoram a realidade
em ventos soprados
por esculturas de nuvens
provando: nunca somos os mesmos

permanecem as horas
no relógio de areia
onde descobrimos o tempo
debochando da vastidão do céu
nosso lugar é o infinito
nosso tempo é sempre
o caminho é a escrita
vertical ou horizontal
interseção de ventos singulares.

segunda-feira, 26 de agosto de 2013





desfragmentado desfragmentado
acabado                       acabado
perfeito                        perfeito  
completo                    completo  
consumado              consumado
terminado                  terminado 
finalizado                   finalizado
 sem ter 
começado
                                          vivido                                          
comemorado
arborizado
crescido
enraizado
semeado



domingo, 25 de agosto de 2013


Um adeus
em plena chegada
é como um final
sem bandeirada

acabar o inacabado
é nem começar o desejado
e assim as transmutações
do espírito, seguem:

do camelo ao leão
do leão à criança...
Ave Nietzsche!

Volto a soltar pipas.
Já abandonei a bolsa amarela
...há tempos


quinta-feira, 22 de agosto de 2013





Se encontrarem
(por aí)
a Felicidade...

não estranhe
se nela reconhecerem
meu sorriso
meus cachos
minha vontade de viver
um cerco de amigos

...se perceberem
o Amor em meus olhos
reparem
tem forma de árvores
desenham folhas
emplacam raízes
e suas  sementes

o vento anda espalhando
por onde passo
uma pintura florescida
em vermelho e amarelo

Há uma floresta de vida
latejando frutos saborosos
aromatizando sob o azul
o tempo: esse mistério sem acasos.

Sigo colhendo a beleza
da generosidade dos momentos
que aprendi arando a liberdade:
presente maior que a vida me deu.



sábado, 17 de agosto de 2013

"...o amor da gente é como um grão
tem que crescer pra germinar...
nossa semeadura..."
Gilberto Gil




olho o tronco
subo ao céu das folhas
escorro pelos galhos
contorno a beleza

fotografo o movimento
paraliso o vento
há entre nós: a paisagem

escorrego a sensibilidade
pelo dorso do ser ao solo
aprofundo minha visão


o chão suporta a vida
desenhada  raízes adentro
fortes arrimos da árvore

infinitos rebentos
rompidas sementes
no seio da terra
brotadas nascentes




sábado, 3 de agosto de 2013
     

" um vento soprou dentro de mim, que não teve jeito de segurar..."




      Anda correndo um vento dentro de mim, que  não sei identificar. Ora é brisa, ora é um moinho Quixote, é uma sensação tão boa, que me sinto janela aberta, pra um horizonte perfumado e colorido, que vez ou outra traz o aroma do manacá. Se chove, aparece arco íris, porque há sempre sol, aonde passa esse vento. 
     O final da tarde voltou a ter nuvens rosadas, como as do final da rua da minha infância. E o vento? Ele continua soprando, como se  indicasse o caminho de uma liberdade doce e suave, onde não cabe sofrer, só senti-la. Essa força ventonesca que me move tem a coragem e o carinho dos meus pais - tão presentes, quando entra um sudoeste daqueles.
       Existe nesse movimento que empurra folhas e sementes, uma mensagem de tempo de florada.
       Não sei dizer o que é, mas minhas raízes estão gritando, pra eu brotar de novo, arrancam-me a espalhar-me pelo chão e me esticam arvorecendo, dando sombra, flor e fruto, protegendo e protegida, cuidando e sendo cuidada, fazendo o desenho de uma floresta ventada.
       As mãos jardineiras já estão a trabalhar, arando e sulcando a terra, pra quando o vento passar, promover mais vida, marcando cada semente o seu lugar e, soprando a paisagem, prossegue nesse (in)ventar, pintando pela janela do horizonte, um novo olhar.
      É a semente elemento abraçada pela terra, alimentada pela água, em que a  alquimia é  fogo lento, possuído pelo vento, que não para de assobiar sentidos em nossa direção.
         
   
sexta-feira, 2 de agosto de 2013








Tudo há e nada existe
nessa (des)combinação
versos (a)juntados
pela vida separados

desagarram-se num encontro
completos de não haver
sonhos (re)plantados
poemas desenhados

cores e telas literárias
palavras coreografadas
caminhos  planejados
semeiam olhos arborizados

E o tempo sem ter relógio:
janela viva de horizontes
constrói dias esperados
por sóis e céus enluarados







terça-feira, 30 de julho de 2013


   


Imagem: Claudia Lemos






uma sombra  perdida
 numa caverna
 um súbito grito preso na garganta
a luz contida nos olhos nunca abertos

Tentou alcançar uma lanterna
o canto entoou uma nota tanta
  a manhã buscou olhos despertos

a pele da alma ressentiu a caridade
as noites longas sem nenhuma estrela
e a falta de um carinho de verdade
imperdoáveis razões para não tê-la

confesso o silêncio dilatava
a covardia de levá-la a sofrer
enquanto o corpo pleno suava
a maldita arte do desfazer

mentira tamanha esboçou
no desenho intravenoso
o tinteiro uma lágrima chorou
na tela um poema pedregoso

o barco desafiando o mar
em torno de uma ilha de promessas
e todo  talento de enganar
nas águas velhas imersas

tranquila foi a volta
para quem tinha a espera
pra quem ficou na revolta
a indomável megera












sábado, 27 de julho de 2013

Evitei  olhar nos olhos do céu, 
para não desejar o impossível.




Já visitei o inferno
quando te achei no paraíso
encontrei minha criança
quando perdi o juízo

Esbarrei o eterno
diante do teu sorriso
gastei toda a esperança
por um prazer indeciso

coloquei chapéu e terno
só pra te dar um aviso
perdi toda confiança
quando acreditar foi preciso

Fiz verão em pleno inverno
um necessário improviso
desfiz sua  temperança
fiz chover sobre o piso

Só não soube ser externo
o teu essencial valorizo
meu coração desgoverno
nesse olhar que poetizo

Na tua pele retina, ainda, deslizo
pois não te olhar no inferno
fez-me no interno ver o paraíso


quinta-feira, 25 de julho de 2013

Sob o frio o tempo arde
ondas geladas em curvas
tomam de forma covarde
ruas sem meias, nem luvas

Asas cinzas, silenciam
o azul atrás da neblina
num abraço anunciam

a caminho a chuva fina
os olhos todos se alinham
em direção ao céu e a colina

Na paisagem dessa história
o fósforo acende a menina
e em versão contraditória
o frio aquece e ilumina

Aproximação acalorada
reúne a necessidade
e a rua  é incendiada
pela solidariedade

Sopa quente, cobertor
vão aos poucos aparecendo
tudo doado com amor
que o frio vai aquecendo




domingo, 21 de julho de 2013




Florada do ciúme
espalhou-se na paisagem
pela disputa de um amor

tornou-se da dor o lume
e da paixão pela aragem
o sentido que o vento for

do sangue de Adônis brotou
pela espada de Marte ferido
 na delicadeza e na cor
eis em pétalas convertido

Por Vênus a vida deixou
para surgir renascido
e através dessa flor
nunca ser esquecido

no vento dessa florada
expandindo o sentimento
sou anêmona ventada
pétalas da flor do vento





quinta-feira, 18 de julho de 2013
Morda essa língua da poesia...
e beba esse verbo que embriaga.
  







Nunca entendeu a poesia
que ela trouxe de oferenda
jamais entendeu a língua
por renegar seus versos

Não houve, nem haverá
reedição de um texto
apagado numa fogueira
queimado nas águas
noturnas das luzes literárias

Ele foi o engano provocado
por tantas palavras ocas
recheadas de intenções
editadas entre goles de silêncios

O poema foi regado e arrancado
pelo  delicado desprezo
das sobras e sombras dele
raspadas do prato da despedida
num banquete de mendigos

pra depois mostrar a festa
e o brinde da felicidade
no lançamento de um romance
que escondia na gaveta do egoísmo
que a chamava de cega
por ela não ver
o que ele não teve coragem de mostrar

essa covardia é uma dívida poética
que habita as entrelinhas de tudo
o que ele venha ler, escrever ou apagar

A leitura dos olhos
chorando poesia
encharcaram as páginas
naufragadas pelo jogo insensato
concluído num beijo e sorriso
que não eram dela

a  língua da língua
ainda sente o vinho
e a travessia regada de estrelas                      
a faz girar moinhos
no brinquedo de cobra-cega
de um vento que o levou





quarta-feira, 17 de julho de 2013



Vou por ai, me misturando ao vento...
Quem sabe, um dia desses, eu não aprenda  voar?!








Esse vento vem de longe
do profundo chão do ar
do silêncio do monge
do barulho do pensar

levanta a poeira alegria
floresce tristes moinhos
assobia e zune poesia

revela a palavra contida
arrepia  pelos e apelos
faz nascer o som da vida

ecoa a vaia e o canto
empurra as ondas do mar
rasga e remenda as nuvens
fazendo o céu marejar

Esse vento chega perto
na superfície a soprar
invade o templo deserto
desenha o seu caminhar








terça-feira, 16 de julho de 2013


Para meu exemplo: ELOÁ





Tua sombra ilumina meus caminhos
és foco de luz sempre
abres os olhos, surpresa
como da primeira vez
procurando a cor da vida
interrogando: Por que é assim?

O sentido de tudo está em ti.
Ouça a música do teu coração
e dança nas estradas desenhadas
ao acaso e encontrarás na paisagem
a certeza dos dias ao nascer e pôr do sol

Acompanha o ritmo que é somente teu
na pavimentação da corda bamba
ou na ponte que balança
a vida só nos garante sacudidelas
depende de nós mantermos a firmeza

A felicidade está na direção dos nossos passos
mesmo quando parecemos Curupiras:
no folclore do engano também tecemos horizontes








segunda-feira, 15 de julho de 2013



Para os que possuem Passos Alados


           Rapsódia de Marcel Gama


Todos somos avessos 
já nascemos invertidos
E mesmo quando choramos
nos tornamos divertidos
e no fundo do sorriso
somos entristecidos
Côncavos e convexos
espelhos de nossos sentidos
Cegos não nos vemos
surdos não nos ouvimos
mudos é que falamos


  
domingo, 14 de julho de 2013




Os ponteiros dos dias
o calendário das horas
o mais cada vez menos
a idade sem madureza

a falta de coragem de crescer
o desejo grande numa estrada pequena

O calendário dos dias
os ponteiros das horas
o menos cada vez mais
a madureza sem idade

a presença do medo de diminuir
a apatia pequena num acostamento

Os ponteiros e calendários
a madureza das horas
sem mais nem menos
a idade do tempo

a distância e a incerteza celebrando o início do fim
o caminho apertado como um abraço de despedida
 
Essa água toda parada
as palavras engolidas em versos
tanta pedra cercando o feudo
que te liberta apenas os olhos para o céu

Se é possível ser feliz assim
que seja hoje e sempre
nessa estrofe desritmada da vida
para existir: sigamos.

sexta-feira, 12 de julho de 2013


tarde ao meio
invade os poros da casa
a respiração da poesia

rasgam-se as cortinas
tremem as paredes
circulam venosos versos
e apanham artérias
espalhadas pelo chão

desatrofiadas estrofes
vagam pelas mãos
que empurraram a porta
sem pedir licença poética

Entra toda à vontade
com tanta metáfora
sem nenhum perdão
rasga-se o silêncio

vento feito de palavras
sublinhando telhados
num poema vestido de azul


quarta-feira, 26 de junho de 2013




                                                                                                                                                       




Quantas Marias 
e amares quânticos
cabem nesse teu sentimento -
sórdido
moribundo -
vago
como os espaços
em branco
do poema concretista
preenchido de infâncias
...
infinitos oito anos
que te impedem de Ser
...
trezentos
trezentos e cinquenta...?

Um dia topará
com Abapuru
no espelho
  descoberto
no sumo de ti
escorrendo no canto
da boca oca
de risos falsos

teus olhos faraós
da inconsequência
regarão o deserto
plantado entre nós

o silêncio berrará
adentro
explodindo inomináveis
estrelas cadentes
numa lua feita de sombra

O vento soprará
a pena fingidora
apagando a poesia
da flor do lácio
sustentada pelas grutas -
labirintos de desejo
profundamente seu -
...
e serás o que quiseres
menos 
o que és de verdade.













sexta-feira, 21 de junho de 2013


Há nesse vento
uma inversão
de estado
em que o ar
fica parado

Na verso
soprado
há um sentido
mutilado

na estrofe
em brisa
descompõem-se
a poetiza

desfaz-se a rima
e o ritmo alado
não se aproxima

Eis um poema

exilado
mastigador
da língua
só pra ser
desinventado


quinta-feira, 20 de junho de 2013


rasgam as ruas
passos fortes

a cidadania machucada
deixa o analgésico
e grita a dor
arranca curativos
e mostra as faixas

chega de sofrermos calados
nada de genéricos
nossa farmácia popular
é a praça pública
nosso remédio é a manifestação

Caminhemos para cura de mãos dadas



terça-feira, 11 de junho de 2013
 ...olhos ateus
cria esperança
nos olhos meus
de verem um dia
o olhar mendigo 
da poesia
nos olhos teus

Vinicius de Moraes



                                           foto: Claudia Lemos 

          

   Qual o olhar de Bentinho diante dos olhos de ressaca de Capitu? Que expressam os olhos de Julieta ao contemplarem Romeu morto na câmara fria? Que caminho fez o olhar, de Dom Quixote dentro dos moinhos de Dulcinéia?  Como ficaram os olhos livres de Oswald de Andrade, quando encontrou Pagú?  Quantos olhares cabem no Barranco de Cegos de Alves Redol? Ou no Ensaio da Cegueira de Saramago? Quantos olhos atrás do óculos do homem de bigode de Drummond, em Poemas das Sete Faces? Qual o movimento, pela última vez, dos olhares empedrados pela Meduza? E os olhos de Sthendal ao ser apresentado a Matilde Dembowski? Como olhava Vinicius as suas futuras esposas?Com que olhos Diadorim despediu-se de Riobaldo? Que olhar sedutor dava poder a Nega Fulô?
     Quantos olhares nossos olhos atravessou? E na travessia de olhares, o que lê nesses olhos o seu olhar leitor?

     Cegas retinas, diante da ótica calidoscópica do amor. A cavernosa solidão do sentimento platônico abandona o acalorado descaminho da chama, tornando-se cego, num olhar apagado pelo encontro dos olhos com a descoberta dos seus próprios olhares alhures.





     
 


   
   

segunda-feira, 10 de junho de 2013
Para Paulo Tamburro
Meu desejo cartográfico
de ter nascido no Rio.

A vontade de comer
sem sentir tanto frio.

Frequentar toda sexta
o Circo Voador
com direito a assobio.

Não dividir água de côco
olhando o mar bravio.

Saber jogar sinuca
matando sem um extravio.

Fazer crônica
como você
só prá ganhar elogio.

domingo, 26 de maio de 2013

Ele era uma praça.
Nele havia mendigos,
um espaço de fé,
crianças correndo,
pombos em revoada,
idosos jogando damas.

Ele: aquilo tudo.
Abraçava a diversidade
quermesses e ambulantes.
Ele: um enorme buquê de flores
perfumados manacás.

Conhecia o caminhar de cada um,
entendia o pisar emocionado
seu chão sensível, os percebia,
mas ninguém o via encolhido
a observar transeuntes,
a contar os sacos de pipocas,
nem os palitos de picolé.

Ele era a praça.
Aquilo tudo.
Um enorme buquê de flores.
A pele social sensível
que ninguém tocava..
Olhos atentos
que ninguém olhava.