ARQUIVENTO

BONS VENTOS A TODOS!!!

domingo, 29 de julho de 2012

Infância; Raul Motta; xilogravura; 1997, prova do artista.jpg



Infante o homem
toma a lembrança
de seu quintal de liberdade

O pássaro primeiro
em mãos de futuro
passeia  possibilidades

A velha criança
florece a raiz
cravada na rocha do tempo

E nas asas
se desfaz
faz
refaz
o menino de nunca mais.









sexta-feira, 27 de julho de 2012
  Para o meu amigo Raul Motta, que me presenteou com a imagem linda de Oswaldo Goeldi, que compõem esse texto:


A quem  busca o impossível justo é que o possível se lhe negue.
Cervantes  M.  Dom Quixote de La Mancha

  Na verdade, ela não é fotogênica, nem agradaria minha mãe, sua presença solapa os limites e é Dona de uma liberdade, que me incomoda. Dulcinéia pisa firme, entre e sai dos rodamoinhos de Quixote, dançando. Como pode uma mulher assim?
   Meus devaneios não dão conta de sua assumida incerteza, da sua experiência em sentir-se cobaia e dizer-se ética, para não usar ninguém como laboratório. Ela bebe mentiras, vomita palavrões e continua linda, sob o céu e sobre o salto invisível, que sempre a fez rebolar, flutuando em pedras e precipícios.
Ela tem no meio da testa uma ruga titânica em forma de interrogação, que incomoda as maiores certezas. O porquê está escrito em seus olhos, quando alguém tenta justificar o ser.
   Os parceiros que sustentam sua imagem intocável, não sabem da sua frequência submundana. Quem a vê, de vez em quando no espelho, é Sancho Pança, amigo que aguenta suas lágrimas escorrendo no meio-fio, enquanto Quixote a busca pela Mem de Sá, em cenários de samba, becos poéticos "a la Bandeira".
Ela não caberia na minha vida é imperfeita demais e por isso a amo perdidamente. Amo com a força que cabe nos braços de um homem, dominado pelo desejo de dominar, capaz de aprisionar a mulher, que habita entre a pele e a alma, na moldura da cama de um motel barato, pra nunca mais deixá-la. Amo seus doces-rudes versos e gestos, flechados de vida, que me resgatam dessa vontade shropenhauriana de eternamente morrer. Ela tem cheiro de flores de feira, eu a respiro no poema que espalha pelas esquinas dessa Lapa, quando passa.
   Minha maior infelicidade é vê-la atravessar a rua, sorrindo para o moinho de vento, que não posso enfrentar por ela.

     Oswaldo Goeldi; Sem título (Ventania), s.d., nanquim sobre papel.                        

Só me resta, no sem-fim da literatura que me engole, os versos de Cervantes:
Procuro na morte a vida;
Saúde na enfermidade;
no cárcere, liberdade;
No encerramento, saída;
No traidor, fidelidade.

Na minha sorte, de quem
já não posso esperar bem,
Ajustou coo céu terrível,
Que, pois lhe peço o impossível,
Nem o possivel me dêem.
quinta-feira, 26 de julho de 2012

Para  Eloá - o poema que já havia  



                                                                 

  Uma bailarina-mulher morava na menina, que se desdobrava em cores, diante das paredes brancas da realidade. Ela vazava pela janela em olhares alienadores e buscava o que não tinha, mas nela havia. Propagava no ar um som de sonhar e um silêncio, onde ela não cabia.
  Sempre sorria para a rua sem saída, no final da tarde avermelhada, alaranjada, rosada, talvez...Não sabia o nome daquela cor preferida em nuances, que encarnava e desbotava em seus olhos. Corria, com as mãos esticadas, para o céu, numa coreografia sozinha de tudo, que em sua volta insistia. Acreditava que tocaria o  fim daquela rua feita de infância. Seus olhos paralisavam, vendo o dia partir, naquela cor que contemplava, naquele momento epifânico, o poema de cada dia... só seu.
terça-feira, 24 de julho de 2012
 Para o menino  de Iraquara   - que virou poesia. 

Há. Entre o eterno afago que teus olhos trazem e tuas mãos renegam existe a fronteira, o contorno que deforma, desfaz, decompõem a imagem-abstrata, concretizada na transpiração dos teus sentidos sem direção.
 As montanhas cartesianas assistem a tua paisagem pulsando inconsciências, vastidões desconexas dos vulcões, em emanações perfumadas dos desejos que escorrem dentro de ti.
 O mar, espelho da criação, diluído pelo vento, ampara no colo tuas profundidades e te absorve em superfícies, na pele do sol.
 Contraventores teus dedos recusam o alcançável pelo infinito, revelando na escrita a caverna platônica, deveras poética, que brotam  nas sombras de tuas mãos-fronteiras, acenando palavras em sinais rupestres do teu ser.
 Descontínuo o poema cresce nas entranhas de ti, se estica na seda dos sonhos e se escreve, numa convulsão delicada e incontrolavelmente insana, que pulsa nas entrelinhas.
 Desenrola a língua, lambe a boca da poesia - essa devassa virgem - e engole em contemplação o caos causado pela falsa ordem, instalado nas prateleiras emoldurando uma Monalisa pintada por Miró, onde os  olheiros não percebem uma paisagem que te observa estranho, refletida em teus olhos, sem alcançar a tua beleza: interferindo na simplicidade cega de ti.
Já não há. És.

*Apropriação literária do título-reflexão de um conto de Machado de Assis.
sábado, 21 de julho de 2012


Para  Luciano Nolasco
Entre bandeiras e faixas,
cruzamento de olhares e vidas.

Veio dentro de caixas,
embalado sem saída,
sem partido.

Não havia.
Era.

Suor político.
Beijo no meio da rua.
Mãos dadas
até o fim
da avenida Rio Branco.

Arpoador.
Baixo-Gávea.
Circo Voador.
Praia do Flamengo.

Trilha Sonora: Cazuza.

20 anos depois de meia oito.
A liberdade de pertencer
a luta
sem perder o romantismo
jamais.







Eram olhos escuros, profundos, como um abismo, poderiam ser chamados de imensidão.
Eles olhavam o mundo, alcançavam ambíguas perspectivas, recantos e superfícies, dimensões ocultas das auras de tudo o que há.
Capturavam paisagens, sorrisos, formas e cores...Ah, as cores! Seu caminho era marcado pela invisibilidade dos matizes, dos tons e o silêncio do colorido do devir.
Um olhar apagador, engulidor de tudo o que via, refletia...Íris de dècoupage, recortador de imagens.
Quando me encontrou, implorei: _ Venha, mire dentro dos meus olhos e arranque as cores e dores, que enchem meu ser de sentidos e sensações, que desejo ausentar desse arco-íris invertido, feito de tons vibrantes, que gritam vida, desejosa que morram em teus olhos. Furta-cor, se apropria desse amor, leva pra ti essa ingenuidade em tons pastéis, desconstrói em mim,  furta-cor, o colorido da verdade. Faz-me um olhar de mentira, pra que eu só enxergue outro olhar, se inventado.
quarta-feira, 18 de julho de 2012

Para Ricardo Lacerda


   Sempre carreguei uma cicatriz antiga - que às vezes coça lembranças - mas não lembro de nenhum acidente ou incidente que causasse essa tatuagem de dor em mim. Sou capaz de reconhecê-la e entendê-la, sem sabê-la.
   A vida não passa de um enredo de enganosas sombras platônicas, para Rosa Montero, um devaneio calderoniano, uma placa escorregadia de um gelo muito frágil.
Nenhum déjà-vus, nenhuma memória...Nada! Só a cicatriz grita dentro de mim sua causa. Ela é estranha a mim e em si mesma, remendo entre o antes e o agora, sem meio, sem saber o Porquê, amanhecida em mim.
    A descausa do desfeito dessa marca escrita, na pele viva, está dentro da sua falta de sentido, do corte que cingiu o tempo desarticulado. Há outras feridas, mas todas estão nessa madrigal, que arde neste momento: lava recolhida pelo desenho da dor.
terça-feira, 17 de julho de 2012
     


      Poetinha, por que me fizeste acreditar no amor? Qual o motivo para me impregnar com teus sonetos? Devias ter criado o Soneto do Amor Fatal, o Soneto da Infidelidade e de toda gama de acreditáveis e possíveis vivências para esse sentimento,  jamais ter aconselhado "Para Viver um Grande Amor", através de um título que dominou tantos corações, permitiu tantos desejos e sonhos idealizados, em torno de uma única perspectiva: Amar, que como disse Mário, é: ...Verbo Intransitivo de regência duvidosa, conjugação perigosíssima. Até no infinitivo, ele dura, Poetinha. Não se desfaz, depois de uma chuva, ou um choro torrencial, onde tentamos odiá-lo, se possível sepultá-lo. 
      Eu lírico pernicioso este seu cantante de lisonjas a mulher, a amada, a amante, que sempre se apaixona à mesma proporção que se despede de um poema para outro, de uma mulher para outra.  
     Pior, muito pior, seus poemas ensinaram aos homens a plurissignificarem o amor, e as musas a acreditarem que somente elas foram amadas, em versos e prosa.
      E os sonetos, Poetinha? As musas, completamente, em suas mãos nos dois tercetos, dispensadas nos quartetos e abandonadas na chave de ouro. Egoísmo literário, Poetinha? 
      Seduziu-me o amor inventado, poetizado, magnético, sensual e que seria eterno, enquanto durasse...
      Ah, Poetinha! Como foste docemente cruel.
      Sigo, Poetinha, entre Gregório e Bandeira, respectivamente:
      
O amor é uma confusão de bocas
um leve tremor de artérias...
Quem diz outra coisa é besta.
....

Porque os corpos se entendem as almas não.

Quero acreditar como Paulo Mendes Campos, Poetinha, que:

  Às vezes o amor acaba como se fora melhor nunca ter existido; mas pode acabar com doçura e esperança; uma palavra, muda ou articulada, e acaba o amor; na verdade; o álcool; de manhã, de tarde, de noite; na floração excessiva da primavera; no abuso do verão; na dissonância do outono; no conforto do inverno; em todos os lugares o amor acaba; a qualquer hora o amor acaba; por qualquer motivo o amor acaba

   Por que, não disse, Poetinha, que o amor maltrata a quem quer bem o ser que ama e que apenas nos poemas eles são eternos...? Por que não revelou que os poetas brincam com o amor? 





     
segunda-feira, 16 de julho de 2012

Palavras, ganâncias de um quarto de hora arrancado à
árvore calcinada da linguagem, entre bons dias e os
boas noites, portas de entrada e saída e entrada de um 
corredor que vai de partealguma a ladoalgum.

Damos voltas e voltas no ventre animal, no ventre mineral,
no ventre temporal. Encontrar a saída: o poema.

Obstinação desse rosto onde se quebra meu olhar. Fronte
armada, invicta, diante de uma paisagem em ruínas, à 
busca o assalto ao segredo. Melancolia de vulcão.
(...)
Arrancar as máscaras da fantasia, cravar uma lança 
no centro sensível: provocar a erupção.
(...)
O tempo se abre em dois: hora do salto mortal.

(in: de Águia ou Sol, Para o poema - Pontos de Partida)

A palavra desamparada, sobressaltos tentam dizer o silêncio, só terraços devastados, o muro da tua casa: impossível de saltar, entre estrofes, versos apoéticos nos olhos cegos de mim, a palavra pela metade, dentro e fora, segura pelo rabo, enquanto a pálpebra de minh'alma treme, sob o vento, a onda, desbotando o desejo contido entre o fundo do mar e as estrelas, deserta-se o poema, cartão postal de um vulcão em cinzas, apaga-se o sorriso, no mar de sal o sol cega os sentidos.
As palavras não sentem o vento de punhais, rasgam a última lava, tocada pela guilhotina do adeus.

Contra a água dias de fogo.
Contra o fogo, dias de água.

(in: Sementes para um hino - Calendário)

Deixo minhas palavras na fronte pura do mar, o poema sem rosto, as ondas formando lagos, nas sombras detrás de tua sombra: nadificando, arrastão no nosso barco-poema, recusando o cais, a escritura riscada nas águas, sem deter-me a margem, sinto o frio da solidão molhada em versos de aura seca, evaporo e te encontro em condição de nuvem, chovendo silêncio na tua face.


sábado, 14 de julho de 2012


Há um ser disfarçado
de algum humano
desconstruindo a emoção alheia.
Não se sabe se está longe, perto
 ou ao seu lado.
CUIDADO!

Pode usar seu lado melhor,
para poções poéticas;
suas melhores confissões
para um mural alheio.
CUIDE-SE!

O pior: pode usar sua solidão,
como um guardanapo branco,
onde pinta, desenha e escreve
em seu batom
beijos que só ficarão na promessa.
NÃO CUIDE DELA..
Ela não precisa de ninguém.


Se já a conhece,
desejo
que ela já não esteja instalada
dentro de você,
pois escorrega em sua alma.
E o único jeito de matá-la,
é escrevê-la, até que perca
o que nunca teve.
Seu nome?  Poesia.





quinta-feira, 12 de julho de 2012
Parceria com Germano Xavier


Nunca mais o que não houve...Nunca mais.

No saguão: Sombra e vento,
folhas sêcas molhadas.
Estações, pensamento.

A noite não cabia
Dentro da lua talhada
O tempo não nos havia.

Horizonte amanhecido
na paisagem azulada
chegamos sem ter ido.

Eu fui ser estrangeiro
Sem saber que ser estrangeiro
Era não ser estrangeiro

Copacabana virada do avesso
Beleza banida no que em mim
Foram passos outrora dados

Redentor de braços abertos
Janelas de almas abertas
Amor de a-mares abertos

Subterrâneos caminhos
Até o Olimpo do tempo
Nós dois sozinhos

Museu de tudo
Nossos olhares
Obreiras obras do absurdo

A Baia nascida
do sol poente
(re)sentindo a vida

Descendo Icaraí
(entre)poemas, pernas e cigarros
ardemos, ali.

Entrar atravessado nas ondas
Da terra; afundar-se no ser
Ancestral com uma terra partida

No museu eu estava,
Tu estavas; retrato morto
- moldura de ninguém

Fui para a proa e vi
o Rio desaguar em meus olhos
numa abissal cor de sentir   

Ela tonteou parada em si
- era o tempo parado na fumaça
Parada de uma eternidade veloz

Bebida de pajelança
um trem voando
parados sob as andanças

Stop. O ônibus disparado.
A janela reveladora
na paisagem(você) ao meu lado.

Na esquina da Santa clara
Teu olhar de fome
- em cartaz - uma alegria rara.

Desarrolhar é preciso
- o gosto da felicidade –
Beber não é preciso.

Eu não sei o que você via
No Arpoador - eu vi o azul azular
a própria dor do azul.

A foto no meu tempo
É um tempo sem tempoazul
De ser tempo no tempo.

Recorro ao azul (novamente),
Pois para ser azul deste azul
Tem de o branco também ser azul.

Um dia, quando eu já perto da morte,
Voltarei para ver estas águas também velhas
De uma hora nova que decidi marcar em mim.

Daqui de onde estou
- parado e navegando –
O mar é de um simples azul.

Meu corpo-ALMA azulzinho
Destas ondas aquém mar
Vai contigo num barquinho.

Barulhança desta paisagem
Abraça o olorum
lágrimas sem maquiagem.

Paisagem: mulher vadia.
Nasceu da coragem do vento
Vagando numa estrela sem guia.

Não me vi o azul de ti
Quando seus olhos verdejaram o mar
Ao chegar em Parati.
quarta-feira, 11 de julho de 2012


A poesia me enganou.
O eu-lírico se quebrou.
Crack!

Versos escorreram sangue.
O poema, cheirando a mangue,
Acabou.

Papel em branco.
Ritmo manco.
Desencantou.

O tempo a contento
a sombra do vento
atravessou.

Na ponta do cais,
explodindo ais,
o poema calou.