quarta-feira, 23 de outubro de 2024

poesia: prosa e poema


     A prosa é a poesia cravada pelas unhas. Faz formas e fôrmas, lapidando o organismo espontâneo dos versos livres do poema, entre parágrafos e complexidades sintáticas, que o sentido poético sempre resmungou. A vertical poesia deixa espaço branco no papel, para que sejam asas, sem compromissos regenciais.
      O poema é a prosa descalça. É o domingo na casa da avó.
      A prosa é vestida. Está na agenda de quarta-feira.
    Mas todas têm P de poesia, de pluralidade, de praia, de primavera...de poeira que se desfaz contra o vento.
      As palavras seguem, desenhando a vastidão poética no papel, sem fronteiras, com a vontade cheia de sentidos e sem direção, bordadas pela liberdade de não saber aonde ir.
       


Passaporte para o infinito

                 Crônicas de viagem existem, desde que desbravar fronteiras tornou-se uma exigência aguda - ou existência para os que julgam mais profundamente esta questão. Li muitos textos sobre este assunto: Crônicas de viagem; Diário de Motocicleta; Comer, Amar e Rezar, além de clássicos como Viagens Setentrionais de Sterne, Cartas de Pero Vaz de Caminha, A Arte de Viajar, mas a melhor de todas as crônicas foi aquela que vivi em viagens, onde cada palavra foi experimentada à conta das aventuras de se arriscar inteira, entre fronteiras, para abraçar descobertas.
                 Durante anos fiquei sem viajar, por motivos vários, pequenos e grandes, no entanto após profundas viagens dentro de mim, entre dores e decisões, necessárias à sobrevivências vitais ao sentido de entender a essência de estarmos por aqui, resolvi "andar por aí". Acabei atravessando as linhas do horizonte corriqueiro e parti pra todos os lados e direções, tornei-me minha própria bússola. Foi assim que compreendi o peso e comprimento da liberdade de cada passo. 
                    Todas as viagens começam dentro de nós e qualquer uma delas tem como ponto de apoio o nosso desejo e como consequências nossas escolhas.
                     Por onde ir? Qual o melhor caminho? E se chover? Se nevar? Se o sol estiver derretendo os miolos? A resposta é: Siga em frente com determinação.   Afinal, parodiando Fernando Pessoa: viajar é preciso, viver não é preciso...
                    

Carta escrita sob(re) o vendaval...








Parágrafos líricos também voam...

   O papel seguro por uma pedra e as palavras circulando na cabeça de vento sobre as montanhas. Tentativas várias de alcançar a luz das sensações, sem pensamentos organizadores da fluidez desembaraçada, que tenta dar vida ao que há entre insignificantes e ressignificados. 
   Processo de refazimento  faz a carta em branco voar, como uma borboleta no azul do papel que mistura-se ao céu e torna-se livre, carregando as intenções de palavras jamais escritas, apenas ensaiadas na expressão do pensamento, que ecoa fora, livre das amarras tecidas entre o papel e a tinta. 
     Entre o vento forte e o chão há leveza e simplicidade, liberta-se o poder de manipular o pensamento em palavras. Resta  sentir o que ficou e deixar ir o que nunca devia ter chegado, num parto do que livre nasceu pra Ser.

(...)



A liberdade vadia 
de quem não conhece corrente 
sopra o grito desaforado

no meio do fim do dia
quando o sol já poente
desenha o esboço rosado

A noite que não havia
cobre então toda gente
com o céu estrelado

E o sol que antes luzia
agora é lua crescente
num silêncio alado

Segue  misteriosa  a travessia
nesse madrigal dormente
por um tempo ensolarado

Provocando a harmonia
um futuro diferente: É urgente!
Onde o presente seja passado.



sexta-feira, 3 de maio de 2024

ternura

Sou a raiz do invisível

que brota depois da chuva

e insiste nos temporais...

Estou escondida no igarapé

fico retida nos bambuzais


A margem dos eitos dos rios

água parada sem fluir

engolida pelos desvios

sempre ensaiando parir

no vento de assobios


Gero e potencializo a vida

até arreebentar as paredes

no inverno sou força encolhida

tecendo infinitas redes

o silêncio a voz intimida


há revolução na primavera

rompe-se a calada alegria

flores de desejos e palavras

explodem em cores e sinfonia

de fruta amadurecida em eras


semente da polpa no chão

abraçada pela natureza

enraiza o outono em vão

cavando a profundeza

do  grito debaixo do não

onde a vida está presa


Guardando a liberdade

no tempo feito de tecer

a escuridão e a verdade

fazem teia de florecer

que a natureza mais tarde,

 só a raiz poderá ver.

 

vaidades invisíveis

 Querem estar, aparecer, ostentar

ser revelação especular

 obtusos balançam na rede

obvios se lançam


invenção de pique esconde

grita-se: Lá vou eu? E onde?

A voz dubla a personagem

escondida na garagem


Sem máscara nem rosto

foto des_botada, sem cor

é um sabor sem gosto


do que posta o impostor

é dessabor e desgosto

olhos cegos de ardor 



temporada

Fico no tempo

a entender

como o tempo fica ...?!?


Se segue

não permanece,

logo não estanca.


entre ponteiros ,

calendários

ele vaza

pelas fronteiras

 dos momentos

.vivemos

enchendo cântaros

num temporal

numérico

que não sabemos carregar.

libertação

A escrava

escreve

em mim

escrita

liberta

crava 

criva

asas feitas de correntes

de águas vivas 

mastiga os cravos

Brava:

_Bravos, estou viva!

Ciranda

Minha infância brinca no vento

faz balanço suspenso no ar

rodopia até a brisa

soltar do redemoinho o Saci

faz pipa lamber marimba

debochando...

e o céu se abre

sobre o viveiro do canto dos pássaros

_ dentro de mim há uma dança livre