ARQUIVENTO

BONS VENTOS A TODOS!!!

terça-feira, 26 de março de 2013


"A poesia reconstitui-se hibridamente nas expressões, no magnetismo da cosmovisão
e esculpe as suas e-imigrações semantúrgicas-indizíveis nas geografias-em-desdobramento-dançante: 
oscilações das cartografias-em-risco, partilha metamórfica do desassossego,
acoplamentos de subversões-perplexidades, transmutação dos murmúrios-sígnicos, incarnação-mutante dos devires,
informulada fractura humana-animalizante, sanguinidade do desejo-experiência-pensamento na exploração mutual 
do enigma que se dissipa, intersecciona, ecoa e retorna violentamente ao estranhamento da germinalidade do deserto, 
à actualização do silabário das epifanias, às vertigens da imanência, 
à heterogeneidade fertilizadora-sacralizadora do olhar-sismológico perdido do (no) mundo……"

Luis Serguilha





   No caos reside uma forma, uma musicalidade, uma sequência, uma lógica. Várias de uma, ou uma de várias. Mesmo dissonante a vivência do som e do ritmo promovem rupturas e quebram a forma, para Criar e Ser. Há uma essência que subjaz e permanece, mesmo que se rompa a sintaxe, se quebre a forma, ou se evidencie uma disritmia.
  A irreverência e descontinuidade buscam um novo sentido, através de signos pré-existentes, por isso algo permanece intacto. O canto dos pássaros ecoa no metálico Stravinscky. Os corais Beneditinos estão presentes no Rock. Tudo é tudo modificado, reorganizado, mas no desfeito há o refeito. A garrafa pet está na construção da casa, feita com tijolos reciclados. Vivem em mim todos os que amo e os que não aprendi a amar.
  Todas as posturas mais conservadoras coabitam as vanguardas inovadoras. O sentido está para o Dadaísmo, assim como o passado alimenta o Futurismo. Todos os textos poéticos continuam e continuarão a existir nos textos posteriores, afirmando-os ou negando-os.
    O texto KOA’E de Luis Serguilha representa o inominável feito de nomes que já existiam, porém foram recombinados, ressignificados, rearticulados, construindo a desconstrução do sentido, para manter viva a transformação, A “metamorfose ambulante” e emergente, numa nova perspectiva, olhando as palavras na sua missão primeira: não de denominar, mas demonizar, chacoalhar e perturbar o silêncio da poesia e do leitor, a fim de torná-lo intolerante, desestabilizador. E, num efeito cascata, fazer do receptor uma extensão da ação desdobradora da inquietude, da loucura, do grito, das sensações, das inconsciências obtusas e secretas. É atirá-lo contra o sistema “perfeito”, organizado, recheado de “boas intenções”, e tão falso de uniformidades e redenções ao belo e sublime. O livro é um demaquilante da imposição e arbitrariedade do signo, à medida que liberta as palavras, deixando-as brotar e atravessar uma a outra, retecendo possibilidades infinitas, onde elas se beijam e se agridem, num combate explosivo que implode a forma tradicional da escritura, para construir metáforas ímpares e redimensionar a teia do inominável, no emaranhado da liberdade de escrever em liberdade.
   Luis Seguillha é um narrador, um eu lírico, uma voz, ou uma polifonia, um denominador, ou não há como denominá-lo? Ele é o quebra-nozes de palavras, que desarticula o texto, querendo encontrar entradas e mostrar que não há saídas. Numa contenção surreal, feita de flores de ametista, o tempo do texto é registrado nos relógios moles de Salvador Dalí e o espaço cubificado por mãos de Picasso, mas ecoa como o texto de Tzara, que só quer o silêncio dos sentidos, mas pra tanto acaba provocando estrondos, a partir do encontro e desencontro das palavras – que se entrechocam e se acariciam, desafinam e afinizam, numa escrita sedutora que evoca a poética da transgressão.
  Classificar, adjetivar textos como os de KOA’E é querer explicar a poesia, logo destruir a literatura, ou querer singularizar a plurissignificação. E o que há na arte desse livro é a legitimidade do discurso, pois se narrar é viver, continuar ser...O narrador de KOA’E desconstrói, retalha o texto, reedificando no seu desfazer o sentido pleno da liberdade literária: o movimento paradigmático sem eixo, abdica da lógica sintagmática, reinstalando uma nova ótica, que não se quer absoluta, pois que mutante. Serguilha, como um “chapeleiro louco”, senta-se a mesa literária, abrindo mão dos tradicionais talheres e banqueteando-se  das iguarias da língua portuguesa, lambuzando-se com a diversidade e adversidade, usando todos os sentidos.
   Há uma profunda e tensa reivindicação de autonomia em KOA’E, tanto para quem escreve, como para quem lê. Brota da desconexão que edita ilogicidades poéticas no fluxo da insanidade a lucidez do dessentido. O aparente desmoronamento sintático cria uma nova lógica. Nesse jogo de palavras cruzadas pela complexidade semântica, que cada signo carrega, tecesse uma teia infinita, uma constelação, uma via láctea literária, feita de paralelepípedos e imensidões, concretudes abstratas e abstrações concretas.
  A mistura revolucionária da convulsiva ebulição queima os olhos e provoca um pane cognitivo no leitor, que empaca pra deslanchar na resiliência e, simultaneamente, deslizar-se desdobrável nesse mosaico de linguagens paraliterário.
   Enquanto leio KOA’E, remeto-me as fotomontagens de Jorge de Lima e Murilo Mendes, e chego ao inspirador Salvador Dalí, porque há recortes em todas as novidades, diferenças e vanguarda  que são inconscientes. O texto de Serguilha é edificado sobre a areia, cheia de silêncios e gritos entrelaçados, numa tumultuada aglomeração e tempestade de remendos únicos, por serem plurais. Percebe-se uma costura as avessas, tecida por linhas tortas, curtas, longas, desenhando descaminhos e atalhos para o desencontro e a convivência dos contrários: suavidade e brutalidade, anciãos e pirralhos, orgulhosos e humilhados, avesso e direito, tênue territorialismo que encerra os que são livres dos que nunca deixaram de se escravizar.
   KOA’E é o que é, ou quase um ‘qual é?!’ da gíria popular brasileira e isso basta.
  Se narrar é ser pai e mãe, o desnarrar  do KOA’E de Luis Serguilha nega a mãe e o pai, sem se sentir filho de ninguém, encontrando sua origem no próprio fazer da narrativa, nas palavras que fazem o texto uma escrita andante, pra nele o leitor caminhar.