No teclado da chuva
acordo o tempo
não há motivo
pra desculpas
existe é medo
e recheio de culpas
na água sobre os telhados morenos
a pele é pouca,
muita é a carga
há tanto por dia
só não brota ternura
desse chão de primavera
o calor frita as flores
e os pássaros calados
só o vento sopra
contra as aragens
acarinhando a dor
de ser deixado no meio da praça
grita a consciência muda
das gentes que falam
mas não fazem
e essa água parada
contamina as vontades
Nadaísmo de quimeras.
Tudoísmo de vazios.
O vento que venta daqui é o mesmo que venta de lá? Não, eu sou controvento, ventania de esparramar, até virar brisa, desabotoar a camisa, para o sangue ventilar. Liquificar sem ar controvento suado, prá na liberdade do vento tocar, no sino, um dobrado e ventando poder voar, soando um verso molhado...
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quinta-feira, 27 de outubro de 2016
domingo, 16 de outubro de 2016
Roda dos ventos
Um sorriso corta o outro
na paisagem da alegria
Faz-se apenas uma boca
a cantar uníssona a liberdade
Encaixam-se as palavras
o pensamento e os corpos
entre o céu e a terra
é vento, é água, é fogo,
quinta-feira, 6 de outubro de 2016
Passagem Avessa
Atravessa essa rua
Ultrapassa o meio fio
Calçadas separam o ir e vir
Sejamos refluxos
encharcando de movimento
as vidas paradas
que apontam os olhos
com medo do risco torto
Quanta falta de vida, na beirada do caminho
não faz travessia.
Busca o meio do mundo!
quarta-feira, 24 de agosto de 2016
Bodas em vento de ouro
A liberdade só o tempo dá...
as asas pedem vento
vão se abrindo devagarinho
de repente sem saber
voamos sobre os anos
na leveza da experiência
no carinho da manobra
sentimos a segurança
sem termos em que apoiar
soprando no rosto
a sensação do tudo posso:
transmutação do espírito,
cinquenta vezes vida
quarta-feira, 13 de julho de 2016
Adeus azulado
Parte da partida
é chegada
metade da metade
fica faltando pedaço
Amigo que vai
é um irmão
que cai no álbum de retratos
"Manuel foi pro céu"
num dia de teto azul
terça-feira, 12 de julho de 2016
Metade de mil
Podia rimar tempos e ventos
não há ritmo às palavras
fluídas, fugazes e sólidas
na surrealice etérea
desse consciente-abstrato
Sopra aqui há alguns versos
sonetos com chaves de alumínio
epopéias ventinescas
quixotes carnavalescos
dulcinéias em moinhos tácitos
A impermanente certeza
corrói na ventilhagem
perfis e cílios postiços
engomados de expectativas
Castrada toda falta de liberdade
e o vento segue soprando a areia
tênue entre a forma e reforma
contrato com a desnecessidade
do limite derrubador de pensamentos
Pouca poesia pra muito vento:
metade de mim.
Mais que trezentos e cinquenta, Mário!
Sou Quinhetos.
quinta-feira, 7 de julho de 2016
Alegria
Era um sorriso espelhado,
nas águas daquele lugar,
que escorria iluminado
até as ondas do mar.
Um dia ficou cinzento
ninguém sabia explicar
e naquele momento
tudo parou de brilhar.
Descobriu-se nas correntes
das águas que ali viviam
o choro dos afluentes
que lentamente morriam
Aconteceu a chuvarada
daquelas que limpam o ar
as aves em revoada
começaram a cantar
Um clarão naquela dia
cobriu toda a paisagem
o sorriso das águas corria
oloruns davam passagem
Toda o povo mergulhou
olhos, mãos, pensamento
o sol brilhou de alegria
sorriram as flores ao vento
quarta-feira, 6 de julho de 2016
Segue o vento
A liberdade do vento
sopra esse outono,
varrendo árvores
e tudo que não serve,
pra nunca mais voltar.
Parte em folhas secas
o que fomos, tivemos
e jamais terminamos
num pretérito imperfeito
que não cansa de existir.
Prossegue na linha
atemporal essa inconstância
filha dos de-sìgnos avassaladores
poesia azeda e doce
gosto de infância melada
e machucada em dores.
O instrumento natural
dessa estação atua
tocando a frente muda
e indelicadamente suave
a brisa atenta do recomeço.
domingo, 19 de junho de 2016
Dom Quixote da Boemia
De todos os loucos do mundo eu quis você
Porque eu tava cansada de ser louca assim sozinha
De todos os loucos do mundo eu quis você
Porque a sua loucura parece um pouco com a minha
Clarice Falcão
Lá vem sua boca gritando silêncios
em frente da porta, com a alma entre as mãos
me dizendo pra entrar, sem entender
que eu pensei que quisesse ficar
Cá ficou você, horas a mais
mordendo o tempo, querendo partir
e eu pensei que quisesse ficar
me pediu pra sair, tentando agradecer
Bebeu a noite, liquificou a manhã
passou a morar por aqui
depois que nunca mais voltou
e eu pensei que quisesse ficar
Mas você não ultrapassa a fronteira
negocia limites se amarrando
numa liberdade que não tem
e eu pensei que quisesse ficar
Na agenda, virá outro descompromisso
Quixote Boêmio, até outro dia!
Essa Dulcinéia é filha dos moinhos...
Sabe voar...dança no vento...
e já não acredita que você quer ficar.
CO_MOVIDAS
Para Maria Ester Iraola
É claro, que somos moventes, movediças e removedoras...com certeza estamos recheadas de dúvidas, bancando certezas, mas como nada é definitivo, ora o sol, ora a chuva impregnam nossas vidas de tudo o que determinamos necessário. Eis (in) verdades notificadoras de nossa humanidade.
Numa roda de Ser nos conectamos com nossas essências, quando tecemos vivências e 'artificamos' as dores em cores subjetivas. Uma é signo, outra é cor, a terceira transparência e a perdida é guia, em caminhos esculpidos por unhas esmaltadas e saltos agulhas, sob passos firmes. Partimos do fim e iniciamos tantos recomeços, repletas do que sempre seremos: Nossas histórias.
Egípcias, romanas, ameríndias e afro-orientais, quem trazemos em nós? Tupiniquins da idade Média, cavamos cavernas em Dubai e patinamos nos desertos. Combinamos as diversidades e criamos novas maneiras de contemplar a lida: nosso trabalho é o devir.
Diferentes idiomas expressam entre nós uma mesma linguagem: SOMOS O DIVINO FEMININO NUM UNIVERSO MESCLADO POR TODOS OS SERES, QUE FOMOS, SOMOS E SEREMOS...
sexta-feira, 27 de maio de 2016
Carta aberta em ventania
Há um erotismo telúrico, nessa vontade perigosa de ser e estar na tua paisagem poética.
Tenho medo de tanta beleza. Quero obedecer a desordem. Pertencer a essa incoerência. Revi-
sitar um "non sense" que já nem sei se reconheço, nos aquarelados sonhos que têm pintado
minha paisagem.
Possibilidades de brisas acalmam o furacão inverossímil que quer arrebentar portas,
quebrar janelas, adiar compromissos, para fechar a porta, abrir a janela, assumir sumiços...
escrever nas páginas dos lençóis um poema vivo e retocado
pela liberdade, bordado pelo abstrato e tomado de nós, entre nós...tecendo uma escultura,
uma imagem-carta aberta, soprada pela ventania, que espalhará o aroma da natureza exa-
lado da explosão desse desejo contido, sob as pálpebras cerradas, as unhas nas paredes, os
lábios mordidos e a pele na mendicância de um simples toque real.
Haverá? Diz um sopro, que nunca deixou de haver...
sábado, 30 de abril de 2016
Entre lençóis e escotilhas
Tantas diferenças nos revelam iguais. Quanto mais distantes, mais próximos. Se somos mais óbvios mais obtusos. Seguimos assim penetrando lençóis e escapando por escotilhas.
Cenas inventadas dentro de uma realidade friamente calculada - os olhos sem ver saídas - apenas entradas escapatórias.
O toque suave do que nos cobre e a brutalidade ferrenha do que nos escapa, rasgando-se a delicadeza.
Nada equivalente, todo espedaçado é o quadro da vida, pintado pelo sopro do acaso.
Lenços imensos, cobrindo desalinhos, formas amassadas contra a gravidade, enquanto leves tecidos sopram os varais.
Sejamos livres, fazendo asas em tecituras e colocando o controverso para o fundo do mar, conferindo-nos os paradoxos, como temperos a iguaria de viver.
Complexos opostos que dão sentido ao nosso caminhar...
Apoética
As palavras colam no céu da boca
guardam-se em gavetas
escondem-se da leitura
Cala-se a poesia
envergonhada do mundo
prefere a liberdade do não...
no silêncio,
os sentidos pulsam,
gritam...
A falta diz mais que a presença
As palavras nesse outono
secam e partem ao vento
para brotarem mais forte
em alguma outra estação
domingo, 10 de abril de 2016
Onde é o céu da tua boca?
Porque o mal é o que sai da boca...
A tua boca
não fala nem beija
ela não é louca
é só uma boca
que a saliva despeja
O que tua boca-oca
deseja?
Dentro dela chove
e faltam palavras
então relampeja
e quando fica sêca
sem esperança
ela só pragueja
sexta-feira, 18 de março de 2016
Conexões...
Numa conversa extrovertida de balcão, consegue-se descobrir coisas inusitadas como: cérebro digestivo. A cliente identifica-se como alguém interessada em assuntos sobre a alimentação e digestão, assim constrói um diálogo com a comerciante à respeito da relação entre o cérebro e o intestino, alegando que ambos estão e têm sentidos conectados. A dona do estabelecimento apresenta um produto, que segundo sua experiência, permite a leveza de sentir o intestino limpo, sem nenhuma impureza. Prontamente, a cliente, que diz ser psicóloga, afirma: Há um intenso reflexo entre o funcionamento do cérebro e a digestão. Ambos são processadores de motivações externas ao corpo (alimentação e imagens) decodificadas em suas entranhas, ressignificadas pra fora, após a transformação que sofrem.
Há, no entanto, o saber sem sabor e o sabor sem saber, que auxiliam a desenvoltura física e psicológica do Ser que humanizamos.
Caminhei, revendo esses pontos de vista, e conclui: Todos os pontos do nosso corpo mantêm interseções e fundamentos que notificam suas equivalências. Notei que havia algo em comum entre a comerciante e a cliente, elas faziam, pois, uma digestão cerebral...
Lembrei, então, de paisagens que alimentaram meu cérebro e de comidas que me fizeram refestelar os pensamentos, num inverno que reuniu todos os meu sentidos. Tudo ficou limpo dentro de mim ao encontrar novos horizontes. Seguimos entre o saber e o sabor do presente, sem olhar pra trás, ou querer estar à frente.
terça-feira, 1 de março de 2016
Lodos, Líquens e areias nada movediças
Há tantas formas de ser e estar no mundo e existem os que não as encontram, seguem desformes. Parece não caberem possibilidades diferentes, para os que pretendem-se sempre iguais. Seguimos a observar e sentir várias maneiras de preencher a vida, nem que seja de um vazio cheio de incertezas. Vemos a cada dia pessoas mais e mais insatisfeitas com as escolhas que fizeram, ou deixarão outros fazerem por elas... se é que isso existe...pois não escolher também é uma escolha.
Tudo isso está presente nestes tempos de subjetividade insana, quando o narcisismo em sua plena força esmaga o outro, sem largar o desejo inconsequente de ter pra ser, como se realmente isso fosse possível. Tudo somos e nada temos, apenas possuímos esse fluxo da vida, que se eterniza, diante da fugacidade do que nos possui - o que está a nossa volta - e cremos nos representar. Quem somos, diante do que temos? E o que temos diante do que somos?
Ilusão, ilusão, que estranha força a conduz e nos deixa levar por uma verdade espantosamente mentirosa. Somos o que sentimos e os sentimentos que provocamos, fora isso nada somos. "...quanta farsa, quanta mentira...", afirma o filósofo Lulu Santos.
Ventemos, então, na direção da essência, essa nossa condição verdadeira, nos oferecendo sentido na caminhada pra dentro de nós. Sejamos de verdade, feitos de nós mesmos. Desapeguemos das pedras e vigiemos o tempo que dura a marca de nossas pegadas, desenhando nossa estrada real.
domingo, 31 de janeiro de 2016
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