ARQUIVENTO

BONS VENTOS A TODOS!!!

segunda-feira, 15 de outubro de 2012



        Quando minha filha, aos 10 anos, fez-me esta pergunta, pensei que fosse ter dificuldade para respondê-la, mas eis que de súbito eu a respondi: 
       _ Pelo mesmo motivo, que sou mãe, minha filha, por amor. E ela insistiu:
       _Amor igual ao que tem por mim? 
    _Não, amor por educar, dividir experiências, conhecimentos, aprender e errar, tentando acertar. Juntar o que eu aprendi, com o que eu sinto, acredito, detesto, evito.  Sensibilizar... é isso. Quem vai ser professor, quer ser um tocador de almas, por isso entendo essa profissão (ou missão) como um sacerdócio, ou simplesmente como uma afinação de instrumentos, pois:  “...viver é afinar um instrumento de dentro para fora de fora pra dentro”.
               O professor é um ser humano comum, cheio de dúvidas, problemas, medos, insatisfações, mas, simultaneamente, temos o que outras profissões talvez não tenham, por subestimar o contato com o outro: a visão da construção e da evolução do aluno que atravessa pelo corredor menino, menina (imaturos independente da idade) e de repente, nos cumprimenta como um homem ou uma mulher (prontos para a luta). Trabalhamos com o tempo, usufruímos dele e podemos observá-lo com o mesmo carinho, que um pai ou uma mãe observa o seu rebento crescer, florir, dar frutos. Temos a sensação de que nossos alunos nascem de nós, não saindo de um útero, mas das cavernas da insegurança, dos becos dos descrédito, das grutas da indiferença, ou, simplesmente, da leitura de um livro, de um texto, ou daquela pergunta (Ah! Aquela que esperamos três anos, que ele fizesse). E daí nosso rosto, antes mesmo de respondermos, dispara o alarme do: _“Que bom! Ele conseguiu!”
                 Quantas provas incompletas, eu já trouxe em branco, para casa, porém com um desabafo na última folha: 
                “_É, desculpe-me, mas hoje não deu; _Eu estou com a cabeça cheia; _Tô apaixonado; _Meus pais estão se separando; _ Briguei com meu melhor amigo ou fui traído; _Pô, aí, não deu Prof, Minha mãe tá doente.” E a vontade de dar um 10 dez, pela honestidade é tão grande, quanto o ciúme, ou inveja mesmo, de não ter  a coragem de declarar isso, numa pauta a direção, ou no meio de uma aula, em tom de desabafo:
                   _“Hoje, eu tô de saco cheio!” Isso é sensibilidade. Isso é nos vermos e nos mostrarmos, como seres humanos. É preciso esquecer, definitivamente, que temos que ser produtivos, pois ninguém produz mais sentimentos do que nós e, quantas vezes, não nos respeitamos, nem nos damos o direito de dizer o que vai dentro da gente. Esquecemos ou fazemos com que esqueçam, até, que somos gente.
                  Por que ser professor? Há, muitas vezes, uma certa ironia nesta pergunta, pela desvalorização, pelo desrespeito e descaso, que nossa profissão vem sofrendo, ao longo do tempo. Mas devo afirmar, que nenhuma outra profissão me satisfaria, mesmo sabendo que nunca vou receber pelo que faço. E quiçá, nem mesmo, saber porque mereço, outras vezes, receber tão pouco, ou menos do que outros colegas, ou que outras profissões. Na verdade, eu já nasci professor, isso está além do meu mapa astral ou da minha carteira de trabalho, porque eu nasci, para amar e nesta profissão encontrei o meio de praticar esse amor.  Assim, mesmo quando não tenho grana para ir a um Congresso da minha área; não posso fazer aquele curso que tanto queria; vou a um Sebo; compro um livro; troco uma edição velha, por uma nova; vou ao museu; vejo uma exposição; quando sobra tempo, vou ao teatro; porque para o amor durar é preciso ser cuidado, regado, renovado. E o amor pela profissão, assim como a vida, parodiando Cecília Meireles, só é possível reinventado...
                 Por isso, eu acredito, que ainda que como professora não tenha, muitas vezes, dinheiro para satisfazer o teu desejo, filha, com o que quer vestir, ter, calçar ou fazer aquela viagem de férias, eu ganho o que muito profissional, mais bem pago, não ganha, tento investir ou revestir de vida, conhecimento e sensibilidade todo ser humano, que senta a minha frente, com o intuito de vivenciar a aprendizagem e com ele aprendo. Talvez pareça pouco para os que preferem a aparência, mas é que nós, professores de verdade, somos maestros e orquestradores da essência.
                Nossa papel é interferir, interagir, não criar os filhos dos outros, mas ensiná-los a serem criativos, diante das circunstâncias da vida. Tê-los como filhos, significa educá-los, prepará-los, preveni-los, não protegê-los da dor, do sofrimento, ou impedi-los de serem infelizes, simplesmente respeitá-los, para termos deles o respeito, que queremos que tenham por todos os que eles encontrarem pelo resto de suas vidas.                                                                         
                          
                 
        Cláudia de Souza Lemos     
                                                                                                                                                                       
Filha de D. Dora, doméstica que sonhava que  eu fosse
 médica  e de Seu Mário , jardineiro que queria
 que eu fosse Engenheira Agrônoma.